
A escassez de órgãos disponíveis para transplante é uma preocupação global. Somente no Brasil, em 2025, cerca de 78 mil pacientes estavam na fila à espera de um órgão, de acordo com o Ministério da Saúde.
Isso acontece porque o processo de doação possui diversas etapas complexas. Antes de tudo, os órgãos só podem ser doados em casos de morte cerebral. Depois, os sistemas de saúde precisam encontrar um receptor compatível e organizar a cirurgia, um processo delicado que deve ser realizado em questão de horas. No Brasil, além disso, também é necessária a autorização da família do doador.
Os xenotransplantes surgem como uma das principais apostas para enfrentar esse problema. A técnica consiste em transplantar órgãos ou tecidos de animais geneticamente modificados para humanos. Essa possibilidade vem sendo estudada desde o século 20. Na maioria dos casos, os cientistas utilizam porcos, cujos órgãos possuem tamanho e funcionamento semelhantes aos nossos, além de apresentarem menor risco de algumas complicações.
Um novo estudo conduzido por pesquisadores chineses mostrou que é possível realizar, em uma mesma pessoa e em uma única cirurgia, o xenotransplante combinado de diferentes órgãos.
Além disso, um fígado completo de porco nunca havia sido transplantado antes. Os pesquisadores da Guangxi Medical University detalharam o caso em um estudo publicado em maio na revista científica Med.
O procedimento foi realizado em um homem de 53 anos que estava clinicamente morto, com necrose no cérebro. Ele apresentava um quadro de doença renal crônica grave e havia sofrido uma hemorragia cerebral. Depois da declaração de sua morte, seu fígado, que funcionava bem, foi doado para outro paciente.
Dezenove horas após a cirurgia, o fígado transplantado começou a funcionar normalmente e até produzia bile. Os níveis de creatinina e ureia na urina, que estavam elevados devido à doença renal, retornaram ao normal. Para os pesquisadores, isso indicava que os novos rins estavam funcionando adequadamente. Nas primeiras 24 horas, não foram observados sinais de rejeição.
Após 36 horas, porém, surgiram alguns indícios de rejeição, incluindo áreas de necrose e alterações na coagulação sanguínea do fígado. Mesmo assim, os órgãos continuaram funcionando. O experimento foi encerrado cinco dias após o transplante, atendendo a pedidos da família.
Outro achado chamou a atenção dos pesquisadores. Os órgãos transplantados apresentavam uma alta concentração de células imunológicas S100A12+, que indicam inflamação. Para a equipe, isso sugere que terapias direcionadas a essas células poderiam ajudar a reduzir a rejeição em futuros xenotransplantes.
O porco utilizado passou por seis modificações genéticas: três genes suínos foram removidos e três genes humanos foram adicionados, com o objetivo de diminuir o risco de rejeição e outras complicações.

Veja também
10 alimentos ricos em vitamina C para sua imunidade ficar nas alturas
Vulvodínia provoca dor crônica e pode prejudicar a rotina das mulheres
Veja a alteração silenciosa no intestino que pode evoluir para câncer