
A maioria dos repelentes que usamos para afastar os mosquitos têm como base um princípio ativo altamente eficiente chamado N,N-dimetil-meta-toluamida, ou DEET. Uma vez aplicado na pele, esse composto atua inibindo os receptores olfativos dos insetos, efetivamente mascarando os odores da pele humana que atraem a fome desses bichos.
No geral, essa substância já é o suficiente para constranger qualquer mosquito. Mas esse nem sempre é o caso.
Os achados publicados Journal of Experimental Biology trazem entendimentos importantes sobre o funcionamento do DEET, e sinalizam na direção de uma possível vulnerabilidade dos repelentes. Contudo, como alertam os pesquisadores, os experimentos feitos em laboratório não necessariamente refletem a maneira como esses produtos funcionam no dia a dia.
“O DEET continua sendo o padrão-ouro entre os repelentes”, disse o pesquisador Claudio Lazzari, principal autor do estudo, para a Australian Broadcasting Corporation. “Ele é um meio eficaz de se proteger contra picadas de mosquitos e pode salvar vidas em áreas onde doenças transmitidas por mosquitos são prevalentes.”
“A suposição comum sempre foi a de que os repelentes funcionam por causa de sua composição química – que o DEET simplesmente tem um cheiro desagradável para os mosquitos e eles fogem, ou que sua composição química impede que os mosquitos nos detectem pelo olfato”, disse, em comunicado, o pesquisador Clément Vinauger, que supervisionou o estudo.
“Mas o que estamos mostrando é que o cérebro do mosquito pode reescrever essa resposta com base na experiência. O que o inseto aprendeu importa tanto quanto o que a substância química faz. E isso, na minha opinião, representa uma mudança de paradigma”, complementa.
Depois, os cientistas submeteram os mosquitos ao condicionamento Pavloviano. O princípio é o mesmo usado no experimento do fisiologista russo Ivan Pavlov, que, no início do século 20, ensinou cães a associarem a hora da refeição com o toque de um sino. Depois de um tempo, o som do instrumento, sozinho, passou a ser o suficiente para fazer os animais salivarem.
Nesse caso, os cientistas experimentaram espirrar um pouco de repelente na gaiola dos mosquitos ao mesmo tempo em que eles se alimentavam do sangue. Isso se repetiu por quatro vezes. Resultado: mais de 60% desses insetos tentaram se alimentar quando expostos apenas ao DEET.
Aproximadamente metade dos mosquitos treinados com o DEET tentaram picar a mão coberta de repelente. Por outro lado, os insetos que não passaram pelo mesmo condicionamento atacaram apenas a mão limpa, e nenhum se aventurou perto da mão tratada.
De acordo com os pesquisadores, esses resultados sugerem que os mosquitos são capazes de aprender com o ambiente e guardar informações. Isto é, a resposta aos repelentes não se limita à fisiologia, mas também tem um aspecto cognitivo. Os mosquitos aprendem.
“Se alguém aplica DEET e sua concentração diminui com o tempo, mas um mosquito ainda consegue se alimentar, o inseto pode começar a associar esse odor a uma recompensa”, disse Vinauger. “Essa é uma possibilidade que devemos levar a sério quando pensamos em como os repelentes são usados no mundo real.”
Por enquanto, a aplicação de repelentes continua sendo uma das principais recomendações para afastar os mosquitos – que, por serem vetores de doenças como a malária, são os animais que mais matam seres humanos no mundo.

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