
O texto abaixo foi publicado originalmente na Revista Questão de Ciência
É muito comum que julguemos as pessoas do passado pelos nossos critérios modernos de atitudes, sentimentos, moral e ética. Se isso deveria ser feito é questão de muito debate. Pessoalmente, como bom biólogo, digo que “depende”. Mas não são só julgamentos que lançamos sobre o passado. Não raro, também buscamos na história a antecipação de ideias modernas, tentando traçar um pedigree. Às vezes os elos estão lá; às vezes, não.
Na terceira edição de sua obra magna (A Origem das Espécies, 1861), Charles Darwin, muito por conta do protesto de alguns leitores e cientistas, incluiu um “esboço histórico”, onde tentou apresentar um resumo “porém imperfeito, da evolução das opiniões sobre a Origem das Espécies”. Darwin cita diversos pensadores, de diferentes épocas, mas geralmente europeus ou americanos.
No esboço histórico presente na quarta edição de A Origem das Espécies (1866), Darwin adicionou uma nota de rodapé sobre um autor clássico: Aristóteles. Darwin pondera que o pensador grego do século 4 AEC chegou a esboçar uma ideia próxima da seleção natural ao sugerir que estruturas corporais poderiam surgir sem propósito e que apenas as combinações funcionais seriam preservadas, enquanto as demais desapareceriam; ainda assim, Darwin ressalta que Aristóteles não compreendeu plenamente o princípio, pois carecia de um mecanismo explicativo adequado, fazendo com que sua proposta permanecesse uma intuição vaga, e não uma teoria científica desenvolvida.
Evidentemente, não se pode esperar que o esboço histórico escrito por Darwin fosse, em si, um tratado abrangente da história do tema. O recorte feito por ele é deveras ocidental. Provavelmente porque era a literatura disponível da época. O fato é que não há qualquer menção em seus escritos a pensadores, por exemplo, do mundo muçulmano que discorreram sobre assuntos que ele teria chamado de “evolutivos”.
Você pode até perguntar: bem, mas existem pensadores muçulmanos pré-Darwin que falaram sobre tais assuntos? Surpreendentemente, sim.
No que tange aos assuntos “evolutivos”, Draper (1875) comentou:
“Às vezes, não sem surpresa, deparamo-nos com ideias que nos orgulhamos de considerar como originadas em nossa própria época. Assim, nossas modernas doutrinas de evolução e desenvolvimento já eram ensinadas em suas escolas [muçulmanas]. Na verdade, eles as levaram muito mais longe do que estamos dispostos a fazer, estendendo-as até mesmo a coisas inorgânicas e minerais”.
Os historiadores da ciência, claro, não se esqueceram desse assunto. Em 2018, por exemplo, Malik e colaboradores publicaram o artigo “Uma história não contada na biologia: a continuidade histórica das ideias evolutivas de estudiosos muçulmanos do século 8 até a época de Darwin”. Eventualmente, esse conhecimento histórico veio a ser difundido para um público mais amplo. E não deu muito certo.
Segundo a BBC, “cerca de mil anos antes de Darwin, um filósofo muçulmano que vivia no Iraque, conhecido como Al-Jahiz, escreveu um livro sobre como os animais mudam através de um processo que também chamou de seleção natural”.
Até onde pude apurar, não é verdade que Al-Jahiz “também chamou de seleção natural”. Por exemplo, no artigo de 2018, uma publicação formal sobre história da ciência, não consta uma afirmação do tipo; nem na literatura mais antiga que consultei. Sim, no artigo de 2018 o time de autores diz que “Al-Jahiz descreveu um processo de ‘seleção natural’”, mas as aspas simples indicam que os autores estão apenas enfatizando uma similaridade, não afirmando que Al-Jahiz usou o termo. O que Al-Jahiz fez foi tecer alguns comentários que hoje soam bastante interessantes aos nossos ouvidos treinados (por vezes, pobremente) em biologia evolutiva. Aqui vão alguns trechos:
“Os animais estão envolvidos numa luta pela existência e pelos recursos, para evitar serem comidos, e se reproduzir”.
“Os animais que sobrevivem para se reproduzir podem transmitir suas características exitosas a seus descendentes”.
Esses elementos mostram que havia, de fato, uma percepção sofisticada de padrões naturais muito antes de Darwin. Contudo, como argumentei em outro lugar, isso não justifica as acusações de plágio que apareceram nas redes sociais.
Reconhecer essas contribuições não implica equipará-las à teoria da evolução por seleção natural tal como formulada por Darwin. A diferença central está no papel causal atribuído aos processos naturais. Em Al-Jahiz, o ambiente aparece como um agente direto que molda os organismos, levando-os a desenvolver novas características para garantir sobrevivência. Esse tipo de explicação aproxima-se mais de uma visão em que a adaptação é induzida externamente. Nesse sentido, se aproxima mais das ideias de Lamarck.
“Os naturalistas referem-se continuamente às condições externas, como clima, alimentação etc., como a única causa possível de variação. Em um sentido muito limitado, como veremos adiante, isso pode ser verdade; mas é absurdo atribuir a meras condições externas a estrutura, por exemplo, do pica-pau, com seus pés, cauda, bico e língua, tão admiravelmente adaptados para capturar insetos sob a casca das árvores…” [ênfase minha]
Há também uma diferença importante no enquadramento teórico. Em Al-Jahiz, para a surpresa de ninguém, as ideias sobre a natureza estão inseridas em uma visão teleológica e teológica, na qual Deus desempenha um papel ativo na ordem e no desenvolvimento dos seres vivos. Isso não é um detalhe menor: significa que não se trata de uma teoria naturalista da origem e da diversificação da vida. Em contraste, a proposta de Darwin é explicitamente naturalista, buscando explicar a biodiversidade por meio de causas naturais contínuas, sem recorrer a intervenções divinas.
Outro ponto crucial é que Al-Jahiz não parece ter construído uma teoria sistemática e coesa para explicar a origem das espécies. Seus escritos contêm insights valiosos e observações pertinentes, incluindo noções que hoje associaríamos à ecologia, como a interconexão entre os organismos, mas esses elementos não são integrados em um modelo explicativo abrangente. Mesmo quando há sugestões de descendência entre formas de vida, elas aparecem de maneira pontual e limitada, sem a generalização para uma ancestralidade comum universal, nem um mecanismo bem definido que sustente essa transformação.

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