23/06/2026

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Bitcoin falhou na missão? Debate acende no Tokennation



Bitcoin falhou na missão? Debate acende no Tokennation
Foto: Equipe BPMoney no Tokennation 2026

O Bitcoin foi criado para descentralizar o dinheiro. Mas, quinze anos depois, o que aconteceu com esse propósito?

Foi essa a pergunta que moveu um dos painéis mais provocadores do Tokennation 2026, evento voltado ao universo cripto realizado no Brasil. Com opiniões distintas e provocações diretas ao mercado, os participantes colocaram em debate o ethos original da maior criptomoeda do mundo.

“Se você compra Bitcoin como investimento, você gosta de dólares”

Rafael Castaneda, cofundador e COO da Oxus Finance, foi direto ao ponto. Para ele, a forma como a maioria das pessoas se relaciona com o Bitcoin representa uma distorção do que a criptomoeda foi criada para ser.

“A cripto nasceu como uma forma de instrumento econômico. Ele tem que ser um meio para a facilitação do acesso a petróleo, soja, e acesso a bens e serviços”, disse Castaneda. “Se você adquire o BTC como investimento, como acúmulo de dinheiro, você não gosta de BTC, você gosta de dólares. E isso é corromper o objetivo pelo qual ele foi criado.”

A crítica vai além do comportamento individual dos investidores. Castaneda questiona o desvio coletivo da comunidade cripto: “Tivemos cachorrinhos coloridos criados por NFT, gastamos um monte de energia pra criar isso. Então qual o ethos original do BTC? Estamos seguindo isso?”

Para ele, o Bitcoin é, antes de tudo, um protocolo. “Ele nasceu para funcionar, para construir blocos. Então sim, ele funciona. Mas qual o propósito dele? É sobre isso que precisamos pensar.”

A captura do BTC pelo mercado financeiro preocupa

Michael, head of growth da Zcash Brasil, trouxe uma leitura diferente da trajetória do BTC. Em vez de focar no desvio, ele destacou as conquistas do ativo ao longo dos anos.

“O BTC tirou os intermediários da frente, abriu novos mercados, expôs os problemas do mundo, educou ainda mais as pessoas ao redor do mundo”, afirmou. “Ele deu voz para quem não tinha. Quebrou uma corrente familiar.”

Ainda assim, Michael demonstrou preocupação com o movimento recente de institucionalização do ativo. “Essa captura do BTC preocupa o mundo em relação ao que foi galgado lá atrás, independente de preço”, disse.

O risco quântico chegou mais cedo do que o esperado

Um dos pontos mais densos do debate foi o risco representado pela computação quântica. Rafaela Romano, fundadora da Disruptivas, alertou que a janela de segurança está se estreitando.

“O risco quântico está muito mais próximo do que a gente esperava. Com a IA, essa evolução está cada vez mais próxima. A galera percebeu que fez um erro de cálculo em relação a quando isso vai acontecer”, disse Romano. “Esse desafio tem dois aspectos: técnico e filosófico. E talvez o filosófico seja o mais difícil.”

A preocupação tem respaldo em dados recentes. Estimativas da comunidade técnica apontam que cerca de 6,9 milhões de BTC, incluindo as carteiras atribuídas a Satoshi Nakamoto, estão expostos a ataques quânticos por utilizarem endereços que revelam a chave pública na blockchain. Uma proposta de atualização do protocolo, conhecida como BIP-361, chegou a sugerir o congelamento desses endereços como medida preventiva, mas não obteve tração suficiente até abril de 2026.

As moedas de Satoshi: símbolo, risco ou cisne negro?

A questão das moedas do criador do Bitcoin, Satoshi Nakamoto, aproximadamente 1,1 milhão de BTC que nunca foram movimentados desde 2011, perpassou toda a conversa com perspectivas distintas.

Castaneda defendeu que a imobilidade dessas moedas carrega um significado que vai além do técnico. “Temos uma fé de que o dinheiro do Satoshi nunca vai ser vendido. Isso é tão importante quanto a forma como o BTC opera em si. Se alguém conseguir hackear a carteira do Satoshi, pra mim o BTC vai continuar sendo o que ele é. Nada vai mudar”, disse.

Michael, por sua vez, trouxe o ângulo da privacidade. “Esse um milhão na carteira do Satoshi foi um problema de criptografia. Se ninguém soubesse o valor que ele tinha, ninguém iria querer hackear. Isso acontece porque é público.”

Para Romano, o cenário pode se tornar um evento de impacto imprevisível. “Pode ser uma espécie de cisne negro, pode ou não ter uma crise, assim como teve em 2020. Esses problemas de privacidade podem inclusive explodir”, avaliou. Romano ainda brincou que, dada a evolução da tecnologia, “talvez até o próprio Google consiga acesso às moedas do Satoshi”.

O Bitcoin falhou? Depende de quem responde

O consenso, ao final do painel no Tokennation 2026, foi a ausência de consenso. Para Castaneda, o desvio do propósito original é real. Além disso, a responsabilidade recai sobre os usuários que transformaram o BTC em veículo de especulação.

Para Michael, o ativo cumpriu parte da missão ao expor as fragilidades do sistema financeiro tradicional e ampliar o acesso à informação.

Para Romano, o Bitcoin coexiste com múltiplas interpretações, e isso pode ser parte natural do processo.

“Há muitas formas que coexistem de usar o BTC. A forma mais fácil de usar a moeda faz parte do processo, mas é importante lembrar dos outros usos”, disse Romano.

O debate no Tokennation 2026 não encerrou a questão. Ele a reabriu.

As informações desta matéria foram apuradas com base nas notas do painel “O Bitcoin Está Falhando em Sua Missão?”, realizado no Tokennation 2026. Em suma, para mais informações sobre o evento, acesse: tokennation.com.br.

Fonte: BPMoney.