03/07/2026

Bocudo Caldas

Magazine Digital

Um museu onde a inteligência artificial faz arte com dados. Você vê, sente, e ela te responde



“Isso é loucura”, disse um dos estudantes baixinho, para si mesmo. “Loucura total”, murmurou o rapaz ao lado dele. Sendo “loucura”, neste caso, uma forma extrema de dizer “incrível”. Estávamos no centro de Los Angeles, na Dataland, o museu prestes a inaugurar dedicado à arte gerada por inteligência artificial – e, sim, a coisa era bem louca. Os estudantes, de uma turma de IA da Universidade da Califórnia (Ucla), faziam uma visita antecipada a convite de seu professor, a estrela da arte digital Refik Anadol.

Fundado por Anadol e sua esposa, a pintora Efsun Erkiliç, a Dataland é uma adição muito aguardada à efervescente cena de arte e tecnologia da cidade – e, indiscutivelmente, o museu de arte de IA mais ambicioso até hoje. A nova atração turística de Los Angeles abre em 20 de junho, na South Grand Avenue. Por enquanto, os cerca de 20 alunos de Anadol e eu éramos os únicos visitantes numa galeria vasta, de paredes pretas e quase 7 m de altura, inundada de luz, cor e som.

Luz, cor e som em combinações complexas: a Dataland, com paredes de 7 m de altura
Luz, cor e som em combinações complexas: a Dataland, com paredes de 7 m de altura

Num momento, fotografias de cores vibrantes da flora e da fauna da Amazônia brasileira deslizavam pela parede e pelo chão; logo depois, fotos semelhantes flutuavam em nossa direção em 3D, antes de acelerar abruptamente e desacelerar de novo; faixas e círculos de luz branca surgiam em padrões complexos; rastros abstratos de verde e amarelo, vermelho e amarelo salpicavam a sala. “Padrões lindos de asas de borboleta”, explicou Anadol.

Asas de borboleta? Pois é. A IA que ele e seu estúdio construíram para o novo museu está transformando dados sobre borboletas da floresta tropical nas imagens em constante movimento que seus alunos chamam de “loucura”.

“Dados não são apenas números”, ressaltou Anadol. Costumavam ser, mas com a explosão da informação que começou na década de 1960, quase tudo pode ser considerado dado: fotografias, vídeo, áudio, até asas de borboleta. Os dados de Anadol sobre as borboletas – origem, expectativa de vida, padrões de cores, comportamento – vêm principalmente da The Encyclopedia of Life, um repositório online compilado pelo Museu Americano de História Natural de Nova York.

Usando essas informações, disse Anadol, “conseguimos modelar algoritmicamente como as borboletas se movem”. Ao alimentar o software extraordinariamente sofisticado que comanda a própria Dataland e a inteligência artificial que o faz funcionar – software, segundo Anadol, composto por mais de 10 milhões de linhas de código –, o resultado é uma obra de arte hipercinética.

Grandes museus, grandes polêmicas

Anadol começou a construir seu nome na área há uma década, com exibições bem menores e contemplativas de padrões abstratos – ondas de cor surgindo numa tela, com seus redemoinhos e turbilhões refletindo dados meteorológicos e outros fenômenos. Sua consagração veio em 2018, com uma encomenda da Filarmônica de Los Angeles para projetar seus arquivos recém-digitalizados – cada apresentação de cada sinfonia, cada trompete, cada oboé, cada nota que a orquestra já tocou – no teto de aço ondulado de sua sede, o Walt Disney Concert Hall, um projeto de Frank Gehry.

Aos 40 anos, já sem aquela carinha de bebê, mas ainda entusiasmado e todo vestido de preto, Anadol raramente fica parado. Seu trabalho vem sendo onipresente no circuito de museus: o Guggenheim de Bilbao, na Espanha; a Serpentine Galleries, em Londres; o Hammer Museum, na Ucla; e outros na Espanha, na França, na Bélgica, na Coreia do Sul e em sua Turquia natal.

Mas, após sua primeira grande encomenda para uma instituição importante, o Museu de Arte Moderna (MoMA) de Nova York, ele terminou envolto em polêmicas. Unsupervised (Sem Supervisão), sua instalação de 2022-2023 no saguão do MoMA, foi tão popular que a exibição foi prorrogada por quase um ano. Frequentadores e seus filhos ficavam hipnotizados pela exibição em constante mudança segundo uma dinâmica de fluidos que se desenrolava em sua tela de 7 por 7 metros. No jornal The Washington Post, Sebastian Smee a declarou “uma obra-prima pioneira da arte gerada por IA”.

Outros críticos não ficaram tão impressionados. Escrevendo no The New York Times, Travis Diehl concluiu que era “apenas um protetor de tela”. Na revista New York, Jerry Saltz a descartou como “uma enorme lâmpada de lava tecnológica” que oferecia uma “lama psicodélica e bolhas bacterianas”.

Se bolhas não são a sua praia, Anadol pode virar um alvo fácil. No entanto, Unsupervised passou a integrar a coleção permanente do MoMA, uma doação de três dos colecionadores de Anadol.

Anadol consolidou seu nome na arte digital após polêmica exposição no MoMA
Anadol consolidou seu nome na arte digital após polêmica exposição no MoMA

E as críticas pesadas o jogaram – junto com a Dataland – bem no centro do mundo da arte digital. De um lado estão vários críticos proeminentes; do outro, curadores e diretores de grandes museus. “Não haverá um futuro no qual esse tipo de trabalho não esteja sendo feito”, disse em entrevista Michael Govan, que dirige o Museu de Arte do Condado de Los Angeles (Lacma). “É como Marcel Duchamp. Se você sabe o que está por trás disso, está aberto a entender.” E, se não sabe, não está.

Com Unsupervised, talvez não estivesse claro se Anadol tinha perdido o fio da meada ou se seus críticos simplesmente não conseguiam encontrá-lo. A exposição inaugural do Dataland, Machine Dreams: Rainforest (Sonhos de Máquina: Floresta Tropical), põe a história em primeiro plano.

Inspirações: indígenas e a Amazônia

Há cinco anos, sua mulher o incentivou a ir com ela à Amazônia em busca de inspiração. Após uma jornada que envolveu aviões, carros e dez horas numa barco a motor, eles foram parar entre os Yawanawá, um povo indígena cujo principal contato com o mundo exterior ocorre por meio da Starlink e do WhatsApp. Anadol e Efsun foram recebidos com música sagrada, dança sagrada e ayahuasca, a bebida alucinógena sagrada.

Logo, Anadol estava colaborando com seus novos amigos em Winds of the Yawanawá (Ventos dos Yawanawá), uma obra de arte baseada em dados cuja apresentação em 2023, na Grécia, foi acompanhada pela venda de 1.000 NFTs em benefício da tribo. “Fiquei tão inspirado”, relembrou ele. “O povo Yawanawá, a forma como vivem na floresta. Eu simplesmente não consigo esquecer esse sentimento. Mas, claro, não devemos ir à floresta tropical todo santo dia. A questão era: ela pode vir até nós?”

Na Dataland, uma versão dela vem. A peça central de Machine Dreams: Rainforest é a sua Infinity Room (Sala do Infinito) um cubo grande no qual um filme de oito minutos gerado por IA passa continuamente nas paredes, refletido por um chão e teto espelhados. O filme apresenta um beija-flor de vidro e uma “árvore da sabedoria” moldada com base num exemplar da Amazônia.

“Eu via esse beija-flor de vidro nos meus sonhos”, disse Anadol. “Perguntei ao cacique: por que estou vendo esse pássaro? Ele disse que este é um pássaro especial que só canta na floresta quando está voando para colher o último suspiro da árvore da sabedoria”. Na Sala do Infinito, você dá um zoom no olho dele e entra num cenário onírico fantástico de flores, tubos e dados. “Folclore algorítmico”, definiu Anadol. “Algo como um novo storytelling”.

Efsun entre projeções da Dataland: informações sobre fauna e flora se transformam em cores
Efsun entre projeções da Dataland: informações sobre fauna e flora se transformam em cores

Borboletas, pássaros, vagalumes, todo tipo de árvore da Amazônia. Os dados que entram em Machine Dreams: Rainforest foram coletados pelo próprio Anadol em campo ou pela equipe de artistas, cientistas, arquitetos e engenheiros em seu laboratório, o Refik Anadol Studio, por meio de parcerias com o Laboratório de Ornitologia de Cornell, o Museu de História Natural de Londres e outras organizações do gênero.

Muitos dados também serão coletados dos próprios visitantes. Sensores Lidar nas paredes calibram seus movimentos. A pulseira eletrônica que você recebe ao entrar no museu é um dispositivo médico que monitora seus batimentos cardíacos e a resposta galvânica da pele – você está animado, calmo, gostando, tendo arrepios? – e os envia para os sistemas de computador da Dataland, permitindo que as exibições respondam em tempo real.

A IA, com intervenção humana, é usada para gerar os aromas da Dataland, criadas em parceria com a divisão de Luxo da L’Oréal, e os seus sabores, em chocolates criados com uma parceira local, a Valerie Confections. “Podemos olhar para um Rothko e sentir emoções incríveis”, disse Anadol, “mas aquela obra de arte nunca vai sentir algo de volta”. Ao contrário das obras de arte da Dataland.

Os dados coletados serão excluídos, a menos que você peça por eles ao sair. Ainda assim, isso me trouxe uma lembrança incômoda. Quando eu era criança, costumava me perguntar, enquanto assistia à TV, se a TV também estava me assistindo. Agora que sou adulto, não me sinto nem um pouco melhor sabendo que hoje em dia ela realmente pode fazer isso. Mas no universo de Anadol isso não é uma fantasia paranoica; é uma maravilha, como quase tudo aos olhos dele.

Resultado da pandemia

Certa manhã no Refik Anadol Studio, a fonte de todo esse deslumbramento tecnológico, Efsun e eu fomos caminhar. O estúdio ocupa a maior parte de uma antiga fábrica de janelas no distrito de Frogtown, em Los Angeles, entre a rodovia I-5 e as margens de concreto do Rio Los Angeles. Pegamos uma calçada ao longo da margem, passando por uma coleção heterogênea de edifícios. Trilhos de trem do outro lado carregavam trens de carga pesados. Um panfleto num poste de telefone dizia: “Desaparecido: Você viu meu robô?”. Ao nosso redor, víamos a natureza pisoteada. Eu conseguia entender o apelo da floresta tropical.

Se a exposição de abertura foi inspirada pela viagem deles à Amazônia, a própria Dataland é um produto da pandemia. A vida normal parou de repente. As trilhas de caminhada foram fechadas. Até as praias foram fechadas. Havia muita conversa sobre o metaverso, um mundo totalmente digital ao qual você poderia ter acesso por meio de óculos de realidade virtual. “Mas estávamos pensando: ninguém vai abandonar sua vida física e se mudar para o espaço digital”, disse Efsun. “Isso não vai acontecer. Precisamos encontrar algo para fazer a ponte entre o digital e o físico. Foi assim que a Dataland nasceu”.

Anadol teve a ideia que acabou se tornando a Dataland quando ele e a mulher estavam de férias no México, após a viagem inicial à floresta tropical. Depois, pensaram no nome – mas isso era tudo o que tinham. “Sou realista”, disse Erkiliç. “Ele é um sonhador. Ele me contou sobre seu sonho, e minha mente ficava pensando: ‘Como podemos realizar isso?’”. Eles precisariam de dinheiro, muito dinheiro. Então, as coisas começaram a se encaixar.

Complexo, com hotel e apartamentos, foi projetado por Frank Gehry
Complexo, com hotel e apartamentos, foi projetado por Frank Gehry

O espaço, num enorme complexo com hotel e apartamentos projetado por Gehry, ficou disponível quando um projeto de cinema multiplex fracassou devido à pandemia. A Nvidia contribuiu com chips. A LG e a Epson ofereceram grandes descontos em eletrônicos. O Google Arts & Culture financiou quatro residências de US$ 25 mil para artistas que queriam explorar a IA. A L’Oréal Luxe pagou pela parceria nos aromas. Investidores privados entraram no negócio. Após 19 meses, em abril, a construção terminou.

E agora, apesar de todos os dados da Dataland (Os ingressos variam de US$ 49 a US$ 79; entre R$ 250 e R$ 400, aproximadamente), a sua experiência ocorre no mundo físico. Não há óculos de realidade virtual entre você e a fantasia. Há até recordações para levar para casa, incluindo chocolates com aromas da floresta tropical.

Uma edição de 1 mil “pinturas vivas”, que vêm com uma impressão de arquivo, podia ser comprada por US$ 5 mil (ou R$ 25 mil) cada, mas esgotou online em 34 minutos. Por US$ 15 mil (cerca de R$ 75.970), os VIPs podem fazer com que um braço robótico chamado Qualia pinte uma tela abstrata guiada por seus dados pessoais – mas já há uma lista de espera. Torça para ter emitido boas vibrações.

Por US$ 15 mil, braço robótico pinta tela abstrata guiada por dados do visitante
Por US$ 15 mil, braço robótico pinta tela abstrata guiada por dados do visitante

Na noite seguinte, fui convidado para ir à casa de Anadol e Efsun, em Hollywood Hills. A casa é elegante, sem frescuras e, por insistência de Efsun, toda branca. Grandes portas e janelas de vidro oferecem vista para um cânion repleto de árvores e vegetação rasteira. O casal comprou o lugar há três anos por cerca de US$ 3 milhões (ou R$ 15 milhões). Mas eles não tiveram muito tempo para mobiliá-lo, razão pela qual a sala de jantar contém uma mesa minimalista, mas nenhuma cadeira.

Mencionei a Sala do Infinito. A certa altura, você fica de pé em um riacho raso e pedregoso; eu quase esperei que meus pés fossem molhar. E eu tinha sido afetado pelo beija-flor de vidro de maneiras que não compreendia muito bem. Pareceu inesperadamente maravilhoso, especialmente aquele momento em que você dá um zoom no olho dele e se vê em um universo de flores e tubos. “Eu os chamo de túneis da memória”, disse Anadol. “Eles são para mim essa transformação mágica que mostra o quão interconectada a natureza é” – consigo mesma, com tudo.

No fim do filme, o beija-flor canta uma canção diferente: o canto de acasalamento de uma ave já extinta no Havaí. A última gravação conhecida de seu canto, aquela que se ouve na Sala do Infinito, foi feita em 1987. “É uma história muito triste”, disse Efsun. “Você vê um pássaro chamando e chamando sem parar, e ele não recebe resposta. O que o faz continuar?”. Então ela percebeu: “Essa era a missão desse pássaro: cantar a última canção. O pássaro estava honrando seu dever. É por isso que isso me toca tanto”.

Em certo sentido, Anadol e Efsun veem a Dataland como o dever deles. Soa ingênuo, mas ambos são sonhadores e conseguiram fazer com que pessoas muito importantes – incluindo Govan, Gehry e o ex-diretor do MoMA Glenn Lowry – sonhassem com eles.

Logo nos vimos conversando sobre a velocidade das mudanças e a resistência que elas enfrentam. “Gastamos muito esforço para manter as coisas como estão”, disse Efsun. “A energia fica estagnada. E agora, como civilização, estamos sendo forçados a mudar as coisas, e isso cria uma crise. É por isso que precisamos de algumas pessoas loucas dando exemplos loucos apenas para sacudir um pouco o mundo. A Dataland pode ser esse pequeno chacoalhão”.