
Pacientes com anemia falciforme, talassemia, aplasia de medula, síndromes mielodisplásicas e outras enfermidades hematológicas costumam conviver com uma rotina de transfusões. Condições como essas afetam o sangue e a medula óssea de formas diferentes, mas podem comprometer a produção ou a sobrevivência das hemácias e levar à anemia.¹,²,³,⁴
Mas, para parte dessas pessoas, encontrar sangue compatível está longe de ser simples. Os tipos A, B, AB, O e o fator Rh representam apenas uma parcela da compatibilidade sanguínea. Segundo a Fundação Pró-Sangue, existem dezenas de sistemas de grupos sanguíneos além dos mais conhecidos pela população.⁵
Diferenças menos conhecidas entre as hemácias podem desencadear reações graves, dificultar novas transfusões e limitar tratamentos. Em algumas situações, localizar uma bolsa segura depende de doadores com fenótipos sanguíneos raros.
Ao Diálogo Raro, a médica Lilian Castilho, membro associada da Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (ABHH) e professora e pesquisadora do Hemocentro da Unicamp, explica por que encontrar sangue compatível pode se tornar um desafio para pacientes com doenças hematológicas complexas e o que ainda precisa avançar no Brasil para ampliar esse acesso.
O que são fenótipos sanguíneos raros?
Os grupos ABO e Rh são os mais conhecidos da população, mas não resumem toda a diversidade sanguínea existente. Hoje, existem 48 sistemas de grupos sanguíneos reconhecidos.⁶
Um fenótipo raro é identificado quando a pessoa apresenta uma combinação incomum de antígenos ou ausência de antígenos de alta frequência na população. Os antígenos são estruturas presentes na superfície das hemácias que funcionam como marcadores biológicos e ajudam o organismo a reconhecer quais células pertencem ao próprio corpo.
Em alguns casos, a chance de encontrar outro doador compatível pode ser inferior a uma em mil pessoas.
Lilian Castilho, médica e membro associada da Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (ABHH) e professora e pesquisadora do Hemocentro da Unicamp
A diversidade genética da população brasileira amplia a variedade de fenótipos sanguíneos, mas também torna mais difícil encontrar bolsas adequadas para pacientes com necessidades transfusionais específicas.
Por que nem toda transfusão é simples?
Pacientes com doenças hematológicas frequentemente precisam receber transfusões ao longo de muitos anos. Com o tempo, o organismo pode produzir anticorpos contra características presentes nas hemácias transfundidas, um processo chamado de aloimunização.⁷
Mesmo quando ABO e Rh são compatíveis, diferenças em outros antígenos podem causar destruição das hemácias transfundidas.
Pacientes com anemia falciforme, talassemia, aplasia de medula e síndromes mielodisplásicas podem apresentar múltiplos anticorpos e variantes dos grupos sanguíneos. Nesses casos, a compatibilidade precisa considerar características específicas das células sanguíneas, identificadas por exames laboratoriais e testes genéticos.
Em alguns casos, exames convencionais já não bastam para definir a compatibilidade. A busca por bolsas seguras exige investigação molecular e laboratórios especializados em imuno-hematologia.
Quando a compatibilidade ampliada se torna indispensável?
A compatibilidade ampliada costuma ser necessária em pacientes que recebem transfusões frequentes ou já desenvolveram anticorpos contra antígenos eritrocitários.
Nesses casos, a análise vai além do ABO e do RhD, principal antígeno do sistema Rh usado na classificação do sangue como positivo ou negativo, e considera outros sistemas de grupos sanguíneos para reduzir o risco de aloimunização e hemólise.⁸
Isso acontece especialmente em pessoas com doença falciforme e talassemia, além de pacientes com histórico de aloanticorpos, autoanticorpos ou candidatos a transplante de medula óssea.
Mesmo anticorpos antigos, que já não aparecem nos exames de rotina, podem provocar destruição das hemácias após nova exposição ao antígeno.
Quais são os riscos de uma transfusão incompatível?
As consequências podem ser graves e, em alguns casos, fatais. Quando o paciente recebe hemácias incompatíveis, o sistema imunológico pode destruir rapidamente as células transfundidas. O quadro pode provocar febre, dor, insuficiência renal, choque e hemólise aguda.
Também existem reações tardias, que aparecem dias ou semanas depois da transfusão, com queda inesperada da hemoglobina e piora clínica.
Outro problema é a formação de novos anticorpos, que torna futuras transfusões ainda mais difíceis.
Em pacientes com doença falciforme, pode ocorrer hiper-hemólise, quando o organismo destrói tanto as hemácias transfundidas quanto as próprias hemácias do paciente.
Além do impacto clínico, esses casos exigem investigações laboratoriais complexas e buscas ampliadas por sangue compatível.
O que acontece quando não há um doador compatível?
A ausência de sangue adequado pode atrasar ou até impedir transfusões necessárias em situações graves de anemia ou sangramento.
O uso de bolsas parcialmente incompatíveis pode aumentar o risco de hemólise grave e de piora progressiva da anemia. Alguns casos exigem investigação molecular avançada para identificar variantes genéticas e selecionar o sangue mais seguro possível.
DESTAQUE
Em situações mais complexas, a busca por bolsas compatíveis ultrapassa fronteiras e envolve programas internacionais de sangue raro.
Lilian Castilho
O Brasil consegue mapear esses doadores?
O País avançou na identificação de doadores raros, mas ainda enfrenta limitações importantes.
A miscigenação da população brasileira amplia a diversidade genética e aumenta a complexidade da compatibilidade sanguínea.
Hoje, o Brasil possui um registro nacional de doadores raros ligado ao Ministério da Saúde e alimentado por hemocentros e laboratórios de referência que realizam fenotipagem e genotipagem eritrocitária, técnica que ajuda a identificar características genéticas mais específicas das hemácias.⁹
Quando um paciente precisa de sangue raro, os serviços consultam esses bancos de dados em busca de unidades compatíveis. Em situações mais complexas, a procura pode incluir registros internacionais.
A cobertura segue desigual entre as regiões do País, e muitos doadores ainda não passaram por investigação molecular.
O que ainda precisa avançar?
Nos últimos anos, a imuno-hematologia molecular ampliou a capacidade de identificar variantes genéticas e localizar sangue compatível com mais precisão.⁷
Entre os avanços estão a expansão da genotipagem eritrocitária, a criação de bancos de doadores raros, a criopreservação de hemácias raras e a integração entre hemocentros de diferentes Estados.
Pacientes politransfundidos também passaram a receber sangue compatível para múltiplos antígenos além de ABO e RhD, estratégia que ajuda a reduzir o risco de aloimunização.
Apesar dos avanços, ainda existem desafios importantes: ampliar o número de doadores genotipados, reduzir desigualdades regionais, integrar melhor os bancos de dados nacionais e tornar a genotipagem mais acessível dentro do sistema público.
Quanto maior a diversidade de doadores cadastrados e estudados molecularmente, maior a chance de encontrar sangue compatível para pacientes com fenótipos raros.
Lilian Castilho
Referências
- Ministério da Saúde. Doença falciforme. Portal Gov.br. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/d/doenca-falciforme. Acesso em: 27 maio 2026.
- Ministério da Saúde. Talassemia. Biblioteca Virtual em Saúde. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/t/talassemia. Acesso em: 27 maio 2026.
- Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia (Abrale). Aplasia de medula. Disponível em: https://abrale.org.br/doencas/anemia-aplasica/. Acesso em: 27 maio 2026.
- Belli CB, Ribeiro AML, Figueiredo MS. Síndrome mielodisplásica: avaliação epidemiológica no Brasil. Hematology, Transfusion and Cell Therapy. Disponível em: https://www.htct.com.br/pt-sindrome-mielodisplasica-avaliacao-epidemiologica-no-articulo-S2531137925011666. Acesso em: 27 maio 2026.
- Fundação Pró-Sangue. Grupos sanguíneos. Disponível em: https://www.portal.prosangue.sp.gov.br/fps. Acesso em: 27 maio 2026.
- International Society of Blood Transfusion (ISBT). Red Cell Immunogenetics and Blood Group Terminology. Disponível em: https://www.isbtweb.org/isbt-working-parties/rcibgt.html. Acesso em: 27 maio 2026.
- Martins PRJ, Castilho L. Imuno-hematologia e segurança transfusional: uma revisão. Hematology, Transfusion and Cell Therapy. Disponível em: https://www.htct.com.br/pt-imuno-hematologia-e-seguranca-transfusional-o-articulo-S2531137920309457. Acesso em: 27 maio 2026.
- Ministério da Saúde. Guia para o uso de hemocomponentes. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/guia_uso_hemocomponentes.pdf. Acesso em: 27 maio 2026.
- Ministério da Saúde. Cadastro Nacional de Sangue Raro. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/guia_cadastro_nacional_sangue_raro.pdf. Acesso em: 27 maio 2026.

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