17/06/2026

Bocudo Caldas

Magazine Digital

O caso dos assassinatos na Cabana Keddie



 

Existem histórias reais que parecem ter saído diretamente de um filme de terror. Esse é justamente o caso dos assassinatos na Cabana Keddie, um crime que abalou uma pequena comunidade na Califórnia no começo dos anos 80.

Marcado por uma violência brutal, o caso adentrou o imaginário público por sua aura de mistério e pela investigação cheia de pontas soltas. Entre suspeitos estranhos, teorias da conspiração e pouquíssima explicação sobre o que realmente aconteceu, o caso da Cabana Keddie se tornou um tema recorrente no mundo do true crime.

Causando fascínio e inquietação no público até os dias de hoje, o caso é tão notório que inspirou a nova obra de Mary Kubica: Não é Ela. Um thriller psicológico devastador, o livro acompanha Courtney Gray, uma jovem mulher que tem suas aguardadas férias transformadas em um pesadelo inesquecível. Tudo isso porque durante a sua estadia à beira de um lago no norte do Wisconsin, ela se depara com uma sangrenta cena de crime dentro da cabana em que a família do irmão está hospedada. Lançamento da coleção E.L.A.S — Especialistas Literárias na Anatomia do Suspense da DarkSide® Books, Não é Ela é uma obra repleta de tensão que leva o leitor por segredos que mostram que ninguém é totalmente inocente nessa história e o perigo sempre esteve dentro de casa.

Mas afinal de contas, o que aconteceu na Cabana Keddie nos anos 1980? A Caveira te conta tudo que você precisa saber sobre esse caso perturbador que inspirou Não é Ela

Uma descoberta aterrorizante

A manhã do dia 12 de abril de 1981 era para ser o início de mais um dia comum em Keddie, uma pequena região ao norte da Califórnia que abrigava um resort conhecido por sua beleza natural e cabanas feitas de madeira. No entanto, o cenário idílico logo seria transformado em um dos crimes mais perturbadores da história dos Estados Unidos.

Tudo começou quando Sheila Sharp, uma jovem de 14 anos, retornou para casa — a cabana 28 do Keddie Resort – após passar a noite na residência vizinha com uma amiga. Sua família havia se mudado para o local no ano anterior, depois que sua mãe finalizou o divórcio e levou os seis filhos de Connecticut para Keddie. Contudo, o que a garota encontrou dentro da modesta cabana de quatro cômodos era digno de um cenário de filme de terror, revelando os sinais de um crime brutal.

Dentro da cabana 28 estavam os corpos de sua mãe, Glenna Susan Sharp, de 36 anos; seu irmão adolescente, John, de 15 anos; e Dana Wingate, um amigo de John de 17 anos. Os três estavam amarrados com fita adesiva isolante e haviam sido brutalmente esfaqueados, estrangulados ou espancados.

As coisas ficaram mais estranhas quando Sheila não encontrou a irmã, Tina, de apenas 12 anos. Para piorar, o caso tomou contornos ainda mais inacreditáveis quando em um quarto adjacente, os dois irmãos mais novos da família, Rickey e Greg, de apenas 10 e 5 anos, foram encontrados ilesos junto com o amigo e vizinho, Justin Smartt, de 12 anos. Aparentemente, os garotos haviam dormido a noite inteira, sem ter consciência do massacre que ocorreu a poucos metros de suas camas.

Assustada com a cena, a garota correu de volta para a casa dos vizinhos, contando o que havia encontrado. O pai de sua amiga, James Seabolt, decidiu então retornar à casa dos Sharp para retirar as crianças pela janela do quarto, evitando assim que testemunhassem a cena na sala de estar. No entanto, ele optou por entrar pela porta dos fundos da cabana para averiguar se alguma das vítimas ainda estava viva, o que pode ter contaminado as evidências do local.

O início da investigação

Os investigadores foram chamados cerca de uma hora depois de Sheila ter encontrado sua família. O primeiro a chegar no local, o delegado Hank Klement, relatou ter encontrado sangue por toda a parte, inclusive no teto e nas paredes da casa. A grande quantidade de sangue sugeriu aos investigadores que as vítimas haviam sido reposicionadas após terem sido brutalmente assassinadas. Ao lado de seus corpos foram encontradas duas facas de cozinha ensanguentadas, um martelo e a coronha de uma pistola. Uma das facas havia sido usada com tanta força que a sua lâmina estava entortada.

Mais tarde, a perícia concluiu que as três vítimas sofreram traumatismo crânio. Além disso, todas exibiam múltiplos ferimentos por instrumentos cortantes, de forma que foi declarado que a causa da morte foi o trauma na cabeça combinado com os ferimentos causados pelas facas.

Em meio a tudo isso, a polícia levou horas para perceber que uma quarta vítima, Tina, estava desaparecida.

A investigação e seus erros

Inicialmente, os investigadores não conseguiram discernir um motivo aparente para os crimes. A cabana 28 não apresentava sinais de arrombamento, o que indicava que os criminosos haviam entrado no local sem usar a força. O telefone da casa estava fora do gancho, as luzes estavam apagadas e as cortinas fechadas. Procurando por pistas, eventualmente a polícia encontrou uma impressão digital não identificada no corrimão da escada dos fundos.

Interrogar os moradores locais também não ajudou muito no início da investigação. A família Seabolt, por exemplo, afirmou que não escutou nenhum barulho suspeito. Já outro casal, que estava ao lado da cabana, afirmou ter sido acordado por volta da 1h30 da manhã por gritos abafados, voltando a dormir após não conseguir identificar a origem do som.

Com pouca informação útil e sem descobrir muitos rastros, as autoridades decidiram interrogar qualquer pessoa que pudesse ter ouvido ou presenciado algo que ajudasse a solucionar o caso. A partir disso, dois suspeitos foram levantados: Martin Smartt, padrasto de Justin, o menino que dormia no quarto com os membros mais novos da família Sharp, e seu amigo, John “Bo” Boubede, que estava hospedado temporariamente em sua casa e era conhecido por ter ligações com o crime organizado. Ambos haviam sido vistos no bar de terno e gravata, agindo de forma estranha, na noite anterior. Mais tarde, Smartt, que era famoso por seu comportamento violento e abusivo, também contou à polícia que possuía um martelo semelhante ao encontrado na cena do crime que havia “desaparecido” pouco antes dos assassinatos.

Apesar das conexões, os interrogatórios não levaram a lugar algum. Após Smartt ter sido submetido ao teste do polígrafo, os investigadores decidiram que nenhum dos homens estava envolvido nos crimes. No meio tempo, outras pistas surgiram. A família Seabolt, por exemplo, lembrou de ter visto uma van verde estacionada em frente à cabana 28, enquanto um vizinho afirmou ter presenciado Glenna gritando com um homem desconhecido três semanas antes do crime.

De volta à Justin Smartt 

Com o passar do tempo, Justin Smartt começou a mudar sua versão do que aconteceu naquela noite. Inicialmente, ele havia dito que estava dormindo durante os assassinatos e, como os outros dois meninos, não tinha ouvido nada. No entanto, em uma entrevista posterior, ele afirmou ter sonhado com os assassinos, enquanto em outra ocasião, durante um teste do polígrafo, disse que acreditava ter presenciado os eventos.

Com a ajuda de um hipnólogo contratado por sua família, o garoto contou que foi acordado por um barulho vindo da sala. Quando olhou pela porta, viu Glenna deitada no sofá e dois homens em pé. Um deles foi caracterizado com bigode e cabelo curto, enquanto o outro estava barbeado com o cabelo comprido. Ambos usavam óculos e um deles carregava um martelo. Justin relatou então que John e Dana entraram na casa e discutiram com os homens, o que resultou em uma violenta briga. Nesse momento, Tina entrou na sala e foi levada pela porta dos fundos da cabana por um dos invasores.

A partir disso, Justin trabalhou com um desenhista forense que elaborou um retrato falado dos dois homens, o qual foi amplamente divulgado pela imprensa. Além disso, as entrevistas com o garoto resultaram na exclusão dos últimos dois suspeitos, os assassinos em série Henry Lee Lucas e Ottis Toole.

Três anos depois: Tina é encontrada

Enquanto os investigadores tentavam descobrir o que havia acontecido na fatídica noite do dia 11 de abril de 1981, outra pergunta atormentava os envolvidos: onde estava Tina Sharp?

A resposta, infelizmente, veio três anos depois, quando um homem encontrou um crânio humano a cerca de 48 quilômetros de Keddie. Perto dos restos mortais, os investigadores encontraram também um cobertor infantil, uma jaqueta de nylon azul e uma calça jeans. Ainda no mesmo ano, testes forenses confirmaram que os ossos pertenciam a Tina Sharp, o que transformou o caso em um homicídio quádruplo. No entanto, o mais estranho é que logo depois de localizar a ossada de Tina a polícia recebeu uma ligação anônima perguntando sobre o caso da Cabana Keddie e a menina de 12 anos que havia desaparecido anos antes.

A confissão de um homem e novas evidências

Com o caso esfriando, a Cabana 28 foi demolida em 2004 junto com qualquer outra pista que pudesse apontar os culpados pelo crime. Contudo, isso não impediu que novas evidências aparecessem e a investigação fosse reaberta em 2013.

Com a morte de Martin Smartt em 2000, seu terapeuta e conselheiro de um grupo para veteranos do Vietnã informou às autoridades que anos antes o homem havia confessado ter matado Glenna porque ela estava tentando convencer sua esposa, Marilyn, a deixá-lo. Ele teria pedido ajuda então a John “Bo” Boubede para tirar Glenna de cena. Isso explicaria porque Justin e os outros dois meninos Sharp foram poupados naquela noite. Embora nunca tenha mencionado quem assassinou John e Dana, Martin contou que era fácil enganar o teste do polígrafo e que o xerife era seu amigo pessoal. Ele também afirmou que assassinou Tina para que ela não o reconhecesse.

Em março de 2016, foi localizado um martelo que correspondia à descrição do objeto que Martin alegou ter desaparecido de sua casa dias antes do assassinato. De acordo com a perícia local, o martelo foi intencionalmente colocado no local enquanto um descarte de arma de crime. Além disso, no mesmo ano, a imprensa revelou uma carta escrita por Martin à esposa, que teria entregado a correspondência à polícia em 2008. Nela, o suspeito escreveu: “paguei o preço do seu amor e o comprei com a vida de quatro pessoas. O que mais você quer?”. Apesar do impacto, a carta nunca foi tratada como confissão ou evidência.

45 anos depois 

Mesmo com tantas pistas e evidências, o caso dos assassinatos na Cabana Keddie permanece sem um desfecho. Apesar disso, ele está longe de ser arquivado.

Em 2018, por exemplo, a polícia afirmou que o DNA recuperado de um pedaço de fita usado para amarrar as vítimas correspondia ao perfil de um suspeito vivo e conhecido pelas autoridades. Isso quer dizer que embora Martin Smartt e “Bo” Boudebe já tenham falecido, o caso pode ter reviravoltas envolvendo novos indivíduos. Em 2021, em entrevista ao canal ABC 10, um dos investigadores responsáveis pelo caso afirmou que “de uma forma ou de outra, ainda conseguiremos resolver isso”.

Fonte: DarkBlog | DarkSide Books.