16/06/2026

Bocudo Caldas

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‘Tiktokização’ da saúde: especialista alerta para riscos de pílulas mágicas



O Brasil é o 7º maior consumidor de medicamentos do mundo — e mais de 90% da população admite se automedicar. Esse hábito, alimentado cada vez mais pelas redes sociais, coloca a saúde de milhões de pessoas em risco.

Parte desse comportamento tem um nome: a chamada “tiktokização” da saúde. O fenômeno transforma influenciadores digitais em substitutos do médico, promovendo remédios e suplementos sem qualquer base científica.

Quando as redes sociais viram consultório

A psiquiatra Dra. Cláudia Ketter, professora da Afya Educação Médica São Paulo, explica que esse movimento tem raízes psicológicas profundas. Segundo ela, algoritmos e conteúdos repetidos criam o chamado “efeito de verdade ilusória”.

“As falsas relações com influenciadores criam um vínculo de confiança não recíproco, porém psicologicamente potente”, afirma a especialista. Esse vínculo oferece respostas rápidas e simples — muito mais atraentes do que uma consulta médica demorada.

O resultado é uma busca crescente por soluções fora do consultório. Uma pesquisa da Afya, em parceria com a healthtech Conexa, revelou que 49% dos pacientes já usam inteligência artificial para tratar questões de saúde.

O que está por trás da busca por alívio imediato

A Dra. Cláudia aponta que há um fator cultural importante nesse cenário. “Há evidências de baixa tolerância ao sofrimento e maior busca por alívio imediato, reforçada pela tecnologia digital, que oferece gratificação instantânea, muito dopaminérgica”, observa.

Emoções comuns do cotidiano, como tristeza, ansiedade e frustração, estão sendo tratadas como doenças. Com isso, cresce o uso equivocado de ansiolíticos, antidepressivos e misturas de fármacos com produtos naturais.

Esses casos, antes dominados por analgésicos, já aparecem com frequência nas emergências brasileiras. É uma mudança de perfil que preocupa especialistas em saúde pública.

Os riscos que vão além do remédio errado

A automedicação mata cerca de 20 mil pessoas por ano no Brasil. Além disso, está associada a um aumento de 18% nas internações por intoxicação, segundo dados levantados por pesquisadores da área.

Sem acompanhamento médico, os problemas se multiplicam. Veja os principais riscos.

  • Doenças mascaradas por medicamentos tomados sem diagnóstico.

  • Interações perigosas entre remédios e suplementos naturais.

  • Tratamentos iniciados de forma errada, agravando o quadro clínico.

  • Dependência de substâncias usadas sem indicação profissional.

  • Atraso no diagnóstico correto de condições sérias.

Cada um desses pontos representa um risco real e evitável. A diferença está em buscar orientação qualificada antes de qualquer decisão.

Como cuidar da saúde com mais responsabilidade

A Dra. Cláudia defende uma abordagem mais humanizada e criteriosa. Para ela, “o medicamento é uma ferramenta, não uma solução universal para a vida”.

Algumas atitudes fazem diferença no dia a dia.

  • Consulte um médico antes de iniciar qualquer medicamento ou suplemento

  • Desconfie de conteúdos de saúde que prometem resultados rápidos nas redes

  • Não use remédios por indicação de influenciadores, mesmo que pareçam confiáveis

  • Informe seu médico sobre todos os produtos que consome, incluindo naturais

  • Valorize o acompanhamento contínuo, não apenas consultas pontuais

Cuidar da saúde exige tempo, escuta e profissional habilitado. Nenhum algoritmo substitui isso.