11/09/2026

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Russos acusam Ucrânia de pintar cruzes nazistas em tanques

IGOR GIELOW (FOLHAPRESS) – A guerra ideológica embutida na invasão da Ucrânia pela Rússia ganhou mais um capítulo com a bem-sucedida contraofensiva de Kiev que retomou quase toda a região de Kharkiv neste mês.

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A bola da vez são as cruzes brancas que passaram a ser pintadas nos tanques e blindados usados pelos ucranianos nos ataques. Elas lembram a insígnia usada pela Wehrmacht, as Forças Armadas da Alemanha nazista (1933-45) em veículos semelhantes –aviões a tinham na fuselagem e asas, com a mais típica suástica na cauda.

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“Coluna blindada com as mais puras cruzes da Wehrmacht”, escreveu o blog militar russo BMPD no dia 7 passado, numa postagem que incluía uma série de tanques ucranianos rumando a Balaklia, uma das primeiras cidadezinhas reconquistadas por Kiev no nordeste no país.

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A associação, feita em canais de Telegram de militares russos, não tem nada de inocente. Uma das justificativas retóricas de Vladimir Putin para lançar sua guerra em 24 de fevereiro foi a suposta desnazificação do país vizinho, algo que remete à memória história de toda a região, que foi violentamente invadida pelos nazistas em 1941.

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Então parte da União Soviética assim como a Rússia, a Ucrânia foi palco de sangrentas batalhas ao longo da Segunda Guerra Mundial, até ser libertada em 1944, ano anterior ao fim do conflito. O país tinha um forte movimento nacionalista associado ao fascismo que colaborou com os invasores contra o inimigo comum: o governo comunista de Moscou.

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Era uma etapa tardia do conflito formativo do império soviético, a Guerra Civil Russa de 1917-22, que opôs monarquistas e nacionalistas aos revolucionários bolcheviques –por fim vitoriosos. Cenários semelhantes foram vistos nos Estados Bálticos quando os nazistas os ocuparam, de 1941 a 1944.

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Na Ucrânia, um dos maiores líderes fascistas do século 20, Stepan Bandera (1909-1959), é até hoje reverenciado em alguns círculos políticos de Kiev, e isso é denunciado em quase toda fala de autoridades russas sobre a guera.

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O símbolo nos tanques pode não ter nada a ver com isso: a cruz cossaca, em diversas cores, é uma insígnia militar comum no país. O emblema das Forças Armadas da Ucrânia traz o tridente do Principado de Kiev que simboliza o país sobre uma cruz vermelha.

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Mas a confusão está garantida, até porque se encaixa na disputa narrativa dos dois lados. Até camisetas do presidente Volodimir Zelenski com símbolos militares já foram chamadas de fascistas em redes sociais.

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Não ajuda o seu governo o fato de que várias unidades militares sob seu comando terem associações conhecidas com o ideário neonazista. A mais famosa delea é o Regimento Azov, que foi incorporado à Guarda Nacional após o início da guerra civil no Donbass (leste do país) contra separatistas pró-Moscou, em 2014.

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Ele foi severamente afetado na campanha russa no sul ucraniano. Sua fama tem sido suplantada agora pelo Regimento Kraken, criado no dia da invasão para reunir voluntários e que opera sob ordens do Ministério da Defesa, mas não do Exército. Ele está na linha de frente do avanço em Kharkiv, e tem diversos nacionalistas radicais e egressos do Azov.

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Naturalmente, daí para dizer que o governo Zelenski é nazista, como acusa Putin, há uma boa distância. Mas há elementos para alimentar as acusações feitas pelo lado russo, e qualquer detalhe acaba sendo destacado –como se vê no caso das cruzes.

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Elas foram vistas em tanques T-72 e T-64, além de blindados ocidentais. As cruzes servem também para uma função mais simplória: diferenciar os veículos em campo, já que Ucrânia e Rússia usam muito material semelhante, de origem soviética.

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Foi o que os russos fizeram no começo da guerra, ao pintar letras como Z, O e V para identificar seus blindados e evitar fogo amigo.

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O Z, principalmente, virou um símbolo da invasão, sendo propagandeado pelo Ministério da Defesa em frases que o incluíam, foneticamente porque a letra não existe no alfabeto cirílico usado no russo e no ucraniano, como “Pela Vitória”. Bandeiras soviéticas também foram vistas com tropas de Moscou, ecoando a guerra dos anos 1940.