Florence Welch é uma feiticeira das palavras. Ela mergulha em suas experiências, provações e sofrimentos e os transforma em arte através dos versos de suas canções. O livro Useless Magic: Lyrics and Poetry, que reúne letras dos quatro primeiros álbuns da banda Florence + The Machine, reflete muito bem isso.
No terceiro álbum da banda, How Big, How Blue, How Beautiful (2015) a artista decidiu ir além e explorou suas vivências de maneira audiovisual. Os videoclipes de canções selecionadas do álbum se tornaram capítulos de The Odyssey, um curta-metragem de 47 minutos que conta a jornada de algumas das músicas mais íntimas de Florence.
O filme foi possível graças à parceria de Welch com o diretor Vincent Haycock, com quem ela havia trabalhado no videoclipe de “Sweet Nothing”, música gravada com o DJ Calvin Harris. Com gravações nos Estados Unidos, México, Escócia e Inglaterra, a produção entrega uma história nascida do caos que conduz Florence a uma jornada de redenção através da música.
Em entrevista à revista Dazed, Florence explicou que ambos sempre souberam como seria o final da história, e a partir dali costuraram todo o resto. “Desde o início definimos que começaria com essa ideia de um mundo quieto e caótico, e que terminaria no palco. Sempre foi uma queda em direção à loucura. Você vai cada vez mais longe e cada vez mais fundo, e no final consegue sair.”

O álbum How Big, How Blue, How Beautiful registra o término de um relacionamento, com direito à decepção amorosa e ao purgatório emocional que se segue. Segundo a cantora, as canções e os clipes representam “um ano que foi um verdadeiro acidente de carro”. E é justamente assim, com um acidente de carro, que a nossa história começa:
Capítulo 1: “What Kind of Man”
A princípio tudo parece bem, com Florence conversando com seu parceiro em um passeio de carro aparentemente inofensivo, a não ser que você preste atenção na conversa: ele diz que na noite passada a ouviu falando enquanto dormia e que ela parecia triste, ao que Florence questiona “por que você não me acordou?”. Esse diálogo aparentemente inocente já explica bastante sobre o tipo de relação em que ela estava, já que o parceiro viu que ela estava sofrendo no sonho e não fez nada a respeito.
Logo, um acidente de carro introduz o caos àquela vida supostamente pacata. A tempestade aparece de maneira literal, mas também tem um significado importante para o teor arrasador daquela relação em que ela se encontrava. “Era quase como se o acidente de carro me transportasse para esta outra dimensão, onde eu tive que enfrentar todas essas coisas que estavam ocorrendo”, explica Florence.
A dança é parte fundamental da performance de The Odyssey e em “What Kind of Man” ela é jogada por todos os lados por diversos homens, representando a natureza caótica de suas relações ao mesmo tempo em que ela tenta manter o controle.
Capítulo 2: “How Big, How Blue, How Beautiful”
Após escapar do acidente no final de “What Kind of Man” desorientada e em uma estrada movimentada, ela é forçada a ir ao purgatório emocional. Em um local vazio, Florence dança consigo mesma em um confronto entre sua personalidade mais caótica e seu lado mais calmo. Conforme a própria letra diz, ela decidiu se machucar.
Capítulo 3: “St Jude”
Este clipe mergulha profundamente na mente de Florence, por isso a ambientação está tão diferente, como se viesse dos anos 1950. A tempestade finalmente encontrou a cantora, que está vulnerável ao ponto de ter que ser carregada pelo seu parceiro – ao mesmo tempo em que o acidente criou uma Florence dividida, a que consegue se erguer e a que se torna completamente dependente.
A música “St Jude” soa como uma oração, um pedido que a artista espera que seja atendido. Quase como um cântico, ela preenche a mente de Florence de esperança de dias melhores, de que as coisas simplesmente se resolvam de uma hora para a outra. Ao final do clipe, a cantora levanta os braços e cai de joelhos, abrindo mão do seu poder de controlar tudo e deixando que a natureza dite seu curso.
Capítulo 4: “Ship to Wreck”
De volta à realidade, Florence foi de Los Angeles para sua casa em Londres, exatamente como a cantora fez em seu ano sabático. Em um dos capítulos mais importantes de The Odyssey, ela entra em um novo confronto consigo própria, no qual metade dela quer a calmaria, enquanto a outra quer a destruição.
É com esta canção que Florence expõe seus maus hábitos, permitindo que o espectador se identifique com aquela situação. Mesmo com uma batalha que atravessa os andares e os cômodos da casa, Florence acaba retornando ao mesmo local, o chão de seu quarto, simbolizando a sua repetitiva natureza autodestrutiva, que mais uma vez ela não conseguiu frear.
Capítulo 5: “Queen of Peace”
Voltando à mente de Florence, este segmento se passa na Escócia, de onde veio a família da artista. “Queen of Peace” aponta as similaridades do passado e do presente, com uma Florence que sempre quis estabelecer a paz, mas tudo em seu entorno a impedia disso.
O clipe mostra paralelos entre passado e presente de um romance entre pessoas que cresceram juntas, mas que também acompanharam a crescente rivalidade entre as famílias. Novamente, a coreografia é empregada para mostrar a natureza de um casal que se atrai e se repele constantemente.
Primeiro por causa da família e depois pela própria dinâmica da relação, os dois precisam se despedir. Este é o clímax de The Odyssey, mostrando a primeira decepção amorosa, aquela que deu origem a todas as outras.
Capítulo 6: “Long and Lost”
Servindo como uma continuação direta de “Queen of Peace”, “Long and Lost” começa a encaminhar o filme para o seu desfecho. Neste segmento fica evidente que os amigos e a família de Florence na verdade estavam tentando protegê-la deste homem que a estava destruindo e ela não percebia. Por fim, eles a embarcam para longe daquela relação tóxica, o que a deixa completamente arrasada.
Capítulo 7: “Mother”
Um clipe tão simples e com tanto a dizer. Em “Mother” Florence se vê de volta a Los Angeles em uma ponte que a aprisiona fisicamente com sua tela de proteção. Ela até pode alcançar a liberdade (o buraco na cerca), mas não consegue chegar lá.
O clipe marca uma transição que ela ainda não está pronta para completar. Em cortes para uma cena em um hotel onde um homem pergunta a ela quando ela pretende sair, ela diz que pretende ficar, mas ele responde que aquilo ali é apenas um lugar e que ninguém pode morar ali. Ou seja, Florence não pode permanecer no purgatório a vida inteira.
Capítulo 8: “Delilah”
Continuando exatamente de onde “Mother” parou, Florence está largada no sofá da recepção do hotel enquanto ouve um discurso poderoso de um homem: “Você acha que perdeu a sua fé, mas não perdeu. Você só a tirou do lugar”. Ele continua a lição para concluir que pessoas não são perfeitas: “Você precisa entender que pessoas são criaturas falhas. Elas cometem erros, elas precisam ser desculpadas desses erros e autorizadas a continuar sua jornada por uma vida melhor e pelo bem”. Se The Odyssey pudesse ser resumida a uma fala, seria a essa daqui.
Mas é claro que a prática é muito mais difícil, e o que se vê a seguir é uma Florence em novo conflito, querendo melhorar, mas encontrando diversos obstáculos no caminho – e pessoas dispostas a ajudá-la. No fim das contas, elas a ajudam a escapar e no final do clipe a artista alcança a liberdade surfando no teto de um carro. Esta é uma simbologia muito forte, já que tudo começou com um acidente de carro: Florence não apenas aprendeu sua lição com a batida, ela está literalmente acima disso (do carro, no caso).
Capítulo 9: “Third Eye”
No capítulo final, Florence finalmente conseguiu incinerar a tempestade na qual ela se encontrava presa. Ela completa o círculo quebrando o padrão de “What Kind of Man” e “St Jude” na qual era jogada ou carregada por homens. Agora ela se encontra de pé, é ela quem os lidera. Através da dança, a cantora supera seus tormentos, o que também é uma referência ao que aconteceu de verdade – a cantora disse que durante seu ano na Inglaterra a dança foi seu refúgio.
Conforme a música diminui, o guitarrista da banda, Rob Ackroyd aparece, mostrando que Florence encerrou o ciclo: sua banda a apoia de volta ao palco, onde ela finalmente aparece. Este é o nível mais elevado de liberdade que ela alcança, cantando as músicas que descrevem o caótico ano e o purgatório emocional pelos quais ela passou. Ela está de volta ao seu lugar e a si própria, lembrando a todos que continua a mesma mas está tentando mudar, em um ato de autocompaixão.
Não é à toa que The Odyssey recebeu este nome, evocando a famosa Odisseia de Homero, história que narra o tumultuado retorno de Ulisses ao lar. As letras traduzidas do álbum estão em Useless Magic, além de anotações e rabiscos escritos por Florence, para que os leitores possam mergulhar na experiência com a cantora.
fonte: DarkBlog | DarkSide Books.

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