14/09/2026

Bocudo Caldas

Magazine Digital

Reunião entre Biden e Xi faz cúpula do G20 na Indonésia ressuscitar G2

IGOR GIELOW (FOLHAPRESS) – Em meio a uma polarização crescente do mundo entre Estados Unidos e China, com a guerra da Rússia contra a Ucrânia como pano de fundo, o G20 fará uma de suas reuniões mais importantes de sua história de pouco mais de duas décadas.

n

n

De forma efetiva, os olhos estarão para o reducionismo G2, indicando americanos e chineses como os atores que interessam para todo o resto do mundo. Nesse sentido, a invasão de Vladimir Putin, aliado de primeira hora de Xi, é apenas uma primeira salva a quente no contexto da Guerra Fria 2.0 iniciada em 2017.

n

Biden e Xi se encontrarão às margens da reunião do grupo das 20 maiores economias do mundo -formado em 1999, após ironicamente uma sucessão de crises que culminou com a quebra da então Rússia de Boris Ieltsin. Será a primeira vez em que ambos se falarão ao vivo desde que Biden assumiu, em 2021. Antes, houve videoconferências.

n

A reunião ocorrerá na paradisíaca Bali. Putin também era aguardado, mas a sequência de reveses militares em solo ucraniano e o mal-estar da presença entre uma plateia francamente contrária à guerra o fizeram desistir de ir.

n

Não que a questão russa não estará presente. Biden tem feito acenos ao Kremlin, pedindo nos bastidores para que Kiev aceite a ideia de negociar. A retirada anunciada de Moscou de Kherson, cidade anexada no sul ucraniano, sugere várias coisas, inclusive a disposição de estabelecer uma fronteira desmilitarizada.

n

Xi é a principal voz no ouvido de Putin, que com o recuo mostrou-se mais flexível do que é usualmente percebido. Ele não foi derrotado militarmente, mas pressentiu a debacle. Poupou forças e deixa em aberto seu real intento.

n

O russo está no jogo para o longo prazo, contra o Ocidente, não a Ucrânia em si. Xi, por sua vez, comunga da mesma ideia, mas tem problemas mais imediatos para resolver com Biden –para não falar em encrencas paralelas, como a renovada assertividade nuclear da Coreia do Norte.

n

O principal é a crise econômica que assombra o regime chinês. Após o tombo da pandemia e a recuperação de 2021, a segunda maior economia do mundo está crescendo a passos de país desenvolvido que ainda não é, ao ritmo entre 3% e 4% neste ano.

n

Há dúvidas acerca da solvência do mercado imobiliário e questões ligadas à disrupção da cadeia produtiva do país devido à política de Covid zero. Mais importante, os EUA declararam uma verdadeira guerra ao estabelecer restrições draconianas para a venda de chips avançados.

n

Esse mercado de semicondutores é centrado na fulcral ilha de Taiwan, que Pequim considera sua e está em franca preparação militar para a hipótese de tomada à força.

n

Não por acaso, os EUA elevam cada vez mais o tom de proteção ao sistema democrático só recentemente adotado pela ilha. É uma briga tão ou mais importante do que a tragédia humana na Ucrânia.

n

Esse contexto, apimentado pela extemporânea visita da presidente da Câmara dos EUA, Nancy Pelosi, a Taipé, só faz a reunião Biden-Xi ficar mais apetitosa. Não se espera anúncio sobrenatural, mesmo envolvendo a guerra europeia, mas só o fato de a reunião ter sido confirmada gera um movimento tectônico, já antecipado pela disposição mútua de negociar questões climáticas expressa na COP27.

n

Xi acaba de ser elevado a um patamar inaudito de poder na China, com seu terceiro mandato à frente da ditadura comunista. Mas ele precisa dos EUA, dada a interdependência econômica com o Ocidente, e vice-versa.

n

Por outro lado, o temor de cair vítima de um regime de sanções como o que se abateu sobre Putin se faz presente, embora pareça mais provável que Pequim vá dobrar quaisquer apostas.

n

Biden, por sua vez, chega algo empoderado por não ter sido destroçado nas eleições de meio de mandato nos EUA, tanto que já insinuou sua candidatura à reeleição. Isso o manterá na frequência “falcão” de política externa, mas o fastio com a instabilidade global de preços de energia e alimentos devido à guerra deverá ser objeto de conversa.

n

O americano irá ouvir pedidos de não interferência, mas também não irá ceder na sua ofensiva militar contra os chineses, promovendo a sensação de que Pequim e suas rotas marítimas estão cercadas pelos americanos e aliados cada vez mais belicosos do Quad (Japão, Índia e Austrália).

n

Segundo Jake Sullivan, conselheiro de segurança nacional da Casa Branca, “Biden vê EUA e China envolvidos em uma competição dura, mas ela não deve se transformar em conflito ou confronto”.

n

O assessor disse a jornalistas que seu chefe deve ser “franco e direto” no encontro de cerca de duas horas com o chinês.

n

Por fim, há um tema subjacente: o do G20, ou G2 ao gosto do cliente, se tornar uma versão mais ágil do desgastado Conselho de Segurança da ONU e o poder de veto que seu cinco membros permanentes (EUA, Reino Unido e França pelo Ocidente, Rússia e China do outro lado) têm.

n

“O futuro pertence a instituições como o G20”, afirma o diretor da Instituição de Serviços Unificados da Índia, o mais antigo think tank do país asiático, general B.K. Sharma. Ele diz que o Conselho de Segurança deixou de promover consensos na política internacional, e aponta para outros entes, como o bloco Brics.

n

Ideia semelhante tem Wang Wen, o diretor-executivo da Faculdade de Finanças da Universidade Renmin, na China. Ele defende que seu país tem de ter uma voz adicional no mundo, até para enfrentar o que chama de “demonização pela mídia ocidental”.

n

Se falta muito do ponto de vista estrutural, o simples fato de Biden e Xi toparem se encontrar na Indonésia para percorrer novamente as diferenças já explicitadas por vídeo sugere algum avanço possível em alguma estabilidade internacional.