11/09/2026

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Qatar usa Copa para tentar limpar imagem após violações de direitos humanos

QATAR (FOLHAPRESS) – Nas ruas de Doha, capital do Qatar, as mulheres são vistas com maus olhos se não cumprirem os códigos de vestimenta, que indicam evitar ombros à mostra e roupas acima do joelho. A comunidade gay internacional não está presente de forma expressiva.

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A cidade é um canteiro de obras, algo que chama atenção especialmente por este ser um país alvo de denúncias de que morreram milhares de trabalhadores imigrantes que se dedicavam à preparação da Copa, segundo a organização Human Rights Watch. De acordo com a instituição, eles ganhavam salários baixos e tinham jornadas exaustivas.

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A Copa do Mundo de 2022 é um passo a mais do Qatar em direção ao uso do esporte, do dinheiro e da influência política para construir sua imagem de poder perante o mundo.

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Anos antes, magnatas qatarianos criaram a Qatar Sports Investments, um fundo de investimento financiado pelo Estado que viria a ser, mais de uma década depois, considerado dono de um dos mais caros times de futebol do mundo, o Paris Saint-Germain.

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Para Reginaldo Nasser, professor de relações internacionais na PUC-SP e especialista em Oriente Médio, a Copa do Mundo de 2022 é uma forma de o regime amenizar as críticas que recebe pelas violações de direitos e proibições comportamentais que estabelece.

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O professor afirma que se colocar no mundo por meio do esporte e outros tipos de financiamento é uma estratégia antiga do governo local, que também apoia instituições educacionais e culturais no Ocidente como forma de ganhar influência sobre os países.

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“Tem um estilo dessa elite árabe [qatari] de bancar universidades, questões culturais. E o esporte, de uns tempos para cá, veio junto.”

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Arlene Clemesha, professora de história árabe da FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas) da USP, diz que a Copa é uma tentativa de fortalecer essa política de inserção do Qatar no mundo, pois, devido à sua produção de petróleo e gás, a nação precisa se equilibrar entre potências.

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Usar o esporte para reconstruir uma reputação é chamado de “sportswashing”, uma estratégia antiga usada por governos, principalmente autocratas, para mudar sua imagem diante da comunidade internacional.

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Da escolha do país como sede, em 2010, até agora, porém, o país foi soterrado por denúncias.

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Ativistas incentivaram o boicote ao campeonato e disseram que um regime como o qatariano, que não apoiava direitos humanos básicos para mulheres, trabalhadores imigrantes e a comunidade LGBTQIA+, não poderia ser palco de tamanho acontecimento.

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Clemesha, que também atuou na direção do Centro de Estudos Árabes da universidade paulista, diz acreditar que o plano original do país era que a Copa fosse fortalecer sua imagem de poder perante o mundo, usando o esporte para vender a nação.

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Questionada, porém, a professora diz que, diante das denúncias de violação de direitos humanos, restou ao país tentar usar a própria Copa para “limpar a sua barra”.

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“Mas não sei se agora ele vai ser capaz de mudar alguma coisa em termos de imagem. Já ficou claro para o mundo que parâmetros de direitos de minorias que são estabelecidos em muitos países não existem no Qatar.”

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A exposição que o Qatar sofreu durante a preparação para o Mundial teve efeito ao menos no quesito dos direitos laborais no país. Após pressão de organizações internacionais e danos à imagem do governo com a morte de trabalhadores, em 2017, o Qatar assumiu reformas trabalhistas.

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O país assinou um acordo com a Organização Internacional do Trabalho se comprometendo a revisar suas leis laborais para imigrantes, colocando-as no padrão mundial, segundo a Anistia Internacional.

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Porém um comunicado da entidade, de outubro deste ano, pedia às autoridades qatarianas para reassumirem o compromisso de finalizar as reformas prometidas.

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Neste sábado (19), o presidente da Fifa, Gianni Infantino, afirmou que vê como hipocrisia as críticas ao Qatar devido às denúncias sobre a situação dos trabalhadores migrantes. Em um longo discurso, o suíço-italiano começou dizendo que os europeus deveriam pedir desculpas pelos próximos 3.000 anos por suas próprias histórias antes de “começar a dar lição de moral”.

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Outros pontos criticados não tiveram avanços significativos, segundo as organizações internacionais. Um deles é o país trata a homossexualidade. No Qatar, ser gay é crime passível de pena de morte.

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Desde o anúncio, parte da comunidade LGBTQIA+ pede boicote ao evento devido às violações de direitos que membros do grupo sofrem por forças de segurança locais.

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Em setembro, o emir Tamim bin Hamad Al Thani disse que torcedores homossexuais de todo o mundo eram bem-vindos “sem discriminação” ao país, em uma tentativa de apaziguar temores de ativistas.

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Um mês depois, a Human Rights Watch emitiu nota afirmando que forças de segurança qatarianas arbitrariamente prenderam gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros no mesmo período em que o emir garantiu ao mundo a segurança da comunidade.

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Em novembro, o ex-jogador da seleção do Qatar e embaixador da Copa Khalid Salman chamou a homossexualidade de “dano mental”. Ele acrescentou ainda que ser gay é um “haram”, pecado proibido no islã.

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Para o pesquisador Ryan Centner, professor na LSE (London School of Economics and Political Science) e especialista em desenvolvimento urbano transnacional e inclusão, tais manifestações são uma forma de transformar a cultura do país em uma arma do regime contra essa comunidade.

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Centner aponta que essas falas pressupõem que não existe comunidade homossexual no local, o que ele diz ser uma mentira. A teoria vendida pelo governo, entretanto, reforça a ideia de que ser LGBTQIA+ é um erro no local.

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“Quando o Qatar diz ‘vocês devem respeitar nossas tradições’, está implícito que viver ou se identificar de qualquer forma como gay ou outro rótulo semelhante é contra a cultura e a tradição qatariana”, afirma o especialista, que realizou uma pesquisa sobre como homens gays ocidentais se relacionam em Dubai e visitou o Qatar durante o período, embora não tenha formalmente pesquisado no país.

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Outro ponto de tensão para o regime em relação a Copa é a situação das mulheres. A professora Arlene Clemesha pontua que o país é visto como mais liberal se comparado com outras nações islâmicas. Por isso, acredita que turistas não devem ter problemas graves caso não sigam rigorosamente os códigos de vestimentas indicados.

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“O problema é mais embaixo se formos falar de direitos de mulheres, o problema é fora da Copa. Por exemplo, se uma pessoa em trânsito tem uma relação com alguém, não é casada e engravida, ela vai presa”, diz.