12/09/2026

Bocudo Caldas

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EUA buscam soluções para moradores de rua

 (FOLHAPRESS) – Ron Dudley, 47, teve um choque no começo da pandemia. Da noite para o dia, tudo se fechou e ninguém mais aparecia para falar com ele ou comprar o jornal que ele vende nas ruas de Washington. “As pessoas não queriam chegar perto. Tinham medo de se contaminar”, diz.

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Ele vive em situação de rua em Washington há seis anos. Dorme em um abrigo e, durante o dia, vende o jornal Street Sense, parte de um projeto para ajudar pessoas sem moradia, na região da rua 14 –uma das mais movimentadas da área central, mas hoje com diversas fachadas vazias.

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“Isso aqui era tão movimentado quanto Nova York. Depois da pandemia, as pessoas foram embora. Muitos restaurantes fecharam, e vários apartamentos estão vazios”, afirma Dudley. “Não acho que vai voltar a ser como antes.”

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Assim como em Washington, muitas cidades americanas ainda tentam lidar com a queda de circulação nas áreas centrais. Parte dos escritórios segue vazia depois da adoção do trabalho remoto, e quem se mudou das metrópoles enfrenta dificuldades para voltar devido à alta dos preços.

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Estas duas questões –a falta de pessoas nas ruas e o alto custo da moradia– impactam os moradores de rua americanos. Os sem-teto costumam contar com redes de apoio nas áreas onde vivem. Residentes e trabalhadores que os veem no mesmo lugar todos os dias costumam ajudar com dinheiro, comida ou pequenos trabalhos. Do outro lado, a alta do preço das casas faz com que mais gente corra risco de ir morar nas ruas e dificulta que quem esteja nessa situação saia dela.

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“É muito difícil alugar um apartamento. Pedem coisas demais para comprovar renda, e os preços estão muito altos”, conta Dudley. “No abrigo, tenho uma cama, um chuveiro, mas meu maior sonho é um dia pegar a chave de um lugar que seja meu. É difícil.”

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O perfil dos sem-teto americanos varia. Muitos perambulam pelas cidades levando suas coisas em malas de rodinhas ou carrinhos de supermercado. Em Washington, é comum vê-los em espaços públicos, como bibliotecas, cafés e unidades do McDonald’s.

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Ao circular pelas ruas, ouve-se com frequência o pedido “Do you have some change?” (você tem algum trocado?).

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Atualmente, não há números precisos sobre o total de pessoas em situação de rua nos EUA. A cifra vinha crescendo ano a ano desde 2017, segundo dados da USICH, órgão que faz levantamentos sobre esse tema para o governo americano. Em janeiro de 2020, havia 580 mil pessoas.

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Com a pandemia, muitas cidades deixaram de fazer contagens, por receio de que isso aumentasse o risco de contágio. O relatório mais recente do USICH, com dados de 2021, levou em conta só o total de pessoas em abrigos: 326 mil. O documento ressalta, no entanto, que muitos dos lugares reduziram sua capacidade durante a pandemia para ampliar o distanciamento social à custa da redução de vagas.

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Sem vagas nos abrigos, houve aumento nas tendas espalhadas por ruas e praças de cidades como Los Angeles e Washington. Na capital, há várias praças tomadas por cabanas. Elas ficam por semanas no mesmo lugar, até que, de repente, são retiradas. Semanas depois, voltam ou surgem novos moradores temporários.

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As grandes cidades dos EUA variam as formas como lidam com as tendas. Em Los Angeles, a prefeitura permite que amplas áreas perto do centro fiquem ocupadas. A gestão vem adiando, há meses, a conclusão de um censo da população de rua. Em 2020, antes da pandemia, havia 66 mil pessoas sem teto na cidade.

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Já em Nova York, o prefeito Eric Adams adotou uma postura de linha dura para reduzir a presença de moradores de rua nas áreas centrais.

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“Adams está muito focado em trazer as pessoas e empresas de volta para os distritos centrais. Pesquisas mostram que os empregados das companhias não se sentem seguros. E então ele se propôs a remover os acampamentos das pessoas e tirá-las das ruas”, aponta Matthew Murphy, diretor-executivo de um centro de pesquisas em moradia da Universidade de Nova York.

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Por outro lado, Adams tem investido na ampliação das opções de abrigo, incluindo um novo modelo que busca ser um meio-termo entre o abrigo temporário e a moradia definitiva, onde as pessoas sem casa possam passar períodos maiores em locais mantidos por igrejas e entidades com ajuda da prefeitura.

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Tanto Murphy quanto Dudley afirmam que a principal forma de resolver a questão é ampliar a oferta de casas disponíveis e o acesso a elas. “Em Nova York, a taxa de vacância de moradias é de menos de 1%. Praticamente não há casas disponíveis para pessoas que só podem pagar até US$ 1.500 por mês. O que fará uma pessoa que não consegue pagar mais do que isso?”, questiona o pesquisador.

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“Você poderia pegar estes lugares abandonados e abrir espaço para as pessoas que não tem como pagar ficarem neles”, sugere Dudley, apontando para prédios vazios . “Mas eu quero pegar a chave de uma porta que seja minha, de um lugar que eu tenha alugado. É meu grande sonho.”