29/01/2026

Bocudo Caldas

Magazine Digital

Investigação reacende alegações de “safari humano” durante o Cerco de Sarajevo





Milão, Itália – A Promotoria de Milão reabriu uma investigação sobre alegações de que turistas ricos pagaram para participar de um sinistro “safari humano” durante o Cerco de Sarajevo, ocorrido entre 1992 e 1996. A investigação busca apurar se indivíduos estrangeiros pagaram somas elevadas, estimadas em até 90 mil dólares, para atirar em civis indefesos a partir de posições estratégicas controladas por forças servo-bósnias.

O Cerco de Sarajevo, que durou quase quatro anos, deixou cerca de 300 mil pessoas presas na cidade, enfrentando severa escassez de alimentos, água, energia e medicamentos. A violência generalizada resultou na morte de aproximadamente 11 mil civis, incluindo mais de 1,6 mil crianças, e deixou dezenas de milhares de feridos.

De acordo com a denúncia, unidades do exército servo-bósnio teriam facilitado o acesso de visitantes estrangeiros a pontos seguros nas encostas ao redor da cidade. Testemunhos indicam que esses indivíduos atiravam contra civis que tentavam atravessar áreas expostas, inclusive crianças.

A investigação ganhou novo impulso após relatos de que cidadãos italianos e americanos estariam entre os principais envolvidos. Uma congressista dos Estados Unidos anunciou a abertura de uma apuração própria após reportagens mencionarem a possível participação de cidadãos americanos.

O jornalista italiano Ezio Gavazzeni apresentou uma denúncia detalhada, afirmando que “pessoas muito ricas” pagavam valores altos para participar dessas ações. Em entrevista ao jornal La Repubblica, Gavazzeni estimou que “pelo menos uma centena” de turistas pode ter se envolvido.

Relatos anteriores também contribuíram para impulsionar a investigação atual. Em 2014, o jornalista e escritor Luca Leone publicou o livro “The Bastards of Sarajevo”, que abordava relatos de violência extrema cometida por estrangeiros durante o conflito. O documentário “Sarajevo Safari”, de 2022, apresentou o relato do ex-oficial de inteligência bósnio Edin Subašić, descrevendo como visitantes eram levados de Belgrado até pontos elevados com vista para áreas como a “Sniper Alley”.

O ex-fuzileiro naval americano John Jordan também prestou depoimento ao Tribunal Penal Internacional, alegando a existência de “turistas atiradores” que iam a Sarajevo “para acertar civis por diversão”.

Apesar da gravidade das acusações, alguns questionam a veracidade e o alcance dos relatos. O jornalista britânico e especialista nos Bálcãs, Tim Judah, afirmou ao The Telegraph que nunca ouviu falar sobre o esquema durante o período em que esteve na região. “Não estou dizendo que não aconteceu. É possível que houvesse pessoas dispostas a pagar por algo assim. Mas não acredito que os números fossem muito grandes”, declarou.

A investigação em curso busca reunir documentos, depoimentos e registros que confirmem ou refutem as alegações, mantendo o tema sob forte interesse internacional devido à gravidade dos supostos crimes cometidos durante um dos conflitos mais marcantes da década de 1990.