11/09/2026

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Amazon quer saber tudo sobre você pelo seu aspirador de pó

AMANDA LEMOS
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Em 2017, uma reportagem da revista The Economist definiu dados pessoais como o novo petróleo do século 21. Desde então, big techs como a Amazon já compraram da rede de supermercados Whole Foods à de clínicas One Medical.

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Em comum, essas empresas lidam com uma quantidade incontável de dados de usuários.

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A movimentação mais recente da gigante fundada por Jeff Bezos foi a aquisição da iRobot, empresa conhecida por seu aspirador-robô Roomba, capaz de mapear a residência para o desempenho de suas tarefas domésticas. O negócio de US$ 1,7 bilhão levantou novamente a discussão, que vem ganhando espaço nos últimos anos, sobre privacidade.

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Hoje, a Amazon, cujo carro-chefe é o ecommerce, é também uma das maiores provedoras de serviços de nuvem dos EUA, uma plataforma de streaming, dona da produtora MGM e de marcas de produtos eletrônicos domésticos e de serviços pessoais.

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André Neto, coordenador do MBA de Gestão Estratégica e Econômica de Negócios da FGV, afirma que negócios envolvendo big techs e empresas de setores dos mais variados vêm crescendo.
“A decisão [da Amazon] é cada vez mais entrar na casa do usuário. Quando a Amazon compra a iRobot, ela está adquirindo um pacote para estar em milhões de residências coletando informações.”

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Em nota, a Amazon afirma que a proteção dos dados dos usuários sempre foi importante para a empresa. “Acreditamos que temos feito um bom trabalho no cuidado dos dados das pessoas em todos os nossos negócios.”

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Ao comprar a iRobot, a Amazon está de olho em dados comportamentais do usuário, na sua intimidade quando está em casa, diz João Victor Archegas, pesquisador sênior de direito e tecnologia do ITS-Rio.

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“Comprar novas empresas para coletar e processar dados é cada vez mais um movimento onipresente”, afirma. “É a captura da atenção: quanto mais conquistar o usuário, mais dados ele compartilha e, assim, permite prever comportamentos futuros para posicionar marcas.”

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Esse cenário, que até há pouco tempo seria visto como roteiro de ficção científica, hoje já tem categoria econômica: é o chamado “capitalismo de vigilância”, afirma Archegas.

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A expressão, popularizada pela professora americana Shoshana Zuboff, designa um capitalismo em que o processo de acumulação baseia-se na coleta de dados pessoais sensíveis e de perfis de consumo.

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As movimentações da Amazon preocupam pela habilidade em processar dados e em criar novas tecnologias, como a assistente virtual Alexa, que consegue traçar um perfil de consumo do usuário, diz André Neto.

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No caso da One Medical, empresa de saúde especializada em atendimento virtual e comprada pela Amazon por US$ 3,9 bilhões, o atrativo são os dados de saúde de usuários.

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Segundo Marina Garrote, pesquisadora na Associação de Pesquisa Data Privacy Brasil, o negócio vai permitir que a Amazon observe desde o que um paciente come a quanto ele corre -monitoramento que não é totalmente regulado por lei nos Estados Unidos.

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O domínio sobre dados por uma empresa é um fator que não costuma ser considerado nas legislações sobre concorrência, ainda mais centradas em preços, diz Marina.

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A LGPD (Lei Geral de Proteção de dados), aprovada no Brasil em 2020, tem como objetivo dar transparência a que dados são coletados e o que é feito com eles.

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“E não acho que precisamos ter medo da tecnologia. Apesar de podermos e devermos fazer essa avaliação de risco. É importante que eu, o usuário, saiba o que está acontecendo. A legislação vem para regular esse fluxo”, afirma Helena Secaf, advogada e pesquisadora na Data Privacy Brasil.