11/09/2026

Bocudo Caldas

Magazine Digital

YouTube privilegia vídeos pró-Bolsonaro em recomendações a usuários, diz estudo

(FOLHAPRESS) – O algoritmo do YouTube privilegia a Jovem Pan e vídeos a favor do presidente Jair Bolsonaro (PL) em suas recomendações, indica estudo do NetLab, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

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Em 18 visitas-teste à plataforma durante o levantamento, os canais do grupo Jovem Pan foram indicados 14 vezes na página inicial do YouTube, com um ou mais vídeos sugeridos. O mais recomendado aos usuários foi o da participação de Bolsonaro no programa Pânico, no dia 26 de agosto.

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A entrevista foi recomendada em oito visitas-teste, em cinco versões (cortes), que juntas somam 9,6 milhões de visualizações. No vídeo, o presidente faz alegações infundadas sobre o processo eleitoral, como a de que as Forças Armadas descobriram “centenas de vulnerabilidades” nas urnas eletrônicas.

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Para o experimento, o NetLab criou 18 novos perfis, que acessaram a plataforma em diferentes datas e horários usando uma aba anônima do navegador e VPN, ferramenta que ocultou o verdadeiro endereço IP do usuário e simulou uma localização geográfica aleatória dentro do Brasil a cada teste.

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O objetivo era identificar quais os canais e os conteúdos noticiosos tiveram visibilidade destacada pelo algoritmo de recomendação do YouTube durante o período de 23 a 30 de agosto.

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Assim, o usuário era “virgem” -não tinha histórico de interação com determinados conteúdos que pudesse alimentar o algoritmo e influenciar as recomendações. Mesmo sem curtidas ou visualizações em canais de direita, o YouTube recomendou vídeos da Jovem Pan e pró-Bolsonaro na maior parte das vezes.

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Conteúdos dos canais da emissora apareceram como a primeira recomendação em 55% das visitas (10 de 18), bem à frente de outros canais de notícias como UOL (5) -que tem participação minoritária e indireta do Grupo Folha, que publica a Folha-, CNN Brasil (1) e Band Jornalismo (1).

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Na página inicial, os mais recomendados, por grupo de comunicação, foram Jovem Pan (25), UOL (16), Grupo Bandeirantes (9), CNN (8), Correio do Povo (7), SBT (6), Metrópoles (5) e Fundação Padre Anchieta (5).

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Outros vídeos da Jovem Pan sugeridos no teste apresentam Luiz Inácio Lula da Silva (PT) como “chefe de quadrilha” e “doente mental”, dizem que o petista estaria atrás de Bolsonaro em pesquisa de intenção de voto do Ibope e afirmam que o STF (Supremo Tribunal Federal) tem uma aliança com o ex-presidente.

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“É muito grave o YouTube, uma plataforma com mais de 130 milhões de usuários no Brasil, privilegiar um veículo de mídia no seu sistema de recomendação, diante de tantas outras fontes. Ainda mais por [a Jovem Pan] ser um veículo hiperpartidário, claramente bolsonarista, que não dá isonomia aos candidatos”, afirma Marie Santini, diretora do Netlab.

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“Essa situação cria um desequilíbrio nas eleições, faz propaganda com o uso do algoritmo, pois a recomendação é uma forma de moderação de conteúdo.”

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Procurada, a Jovem Pan não respondeu até a publicação desta reportagem. O YouTube afirma que não teve acesso à pesquisa e, portanto, não iria comentar os resultados.

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“Nosso sistema de recomendação busca ajudar as pessoas a encontrarem vídeos que lhes ofereçam algo útil e interessante”, diz a assessoria da empresa. “Para tal, nós nos baseamos em vários tipos de ‘sinais’, ou seja, dados que alimentam o sistema. Esses sinais incluem cliques, tempo de visualização, respostas a pesquisas, número de compartilhamentos, números de cliques em “gostei” e “não gostei”, entre outros.”

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A plataforma também afirma que desde 2019 vem realizando uma série de atualizações no sistema de recomendação para reduzir o alcance de conteúdo que está no limite das diretrizes do YouTube e que, hoje, o consumo de produções do tipo que chegam por meio das sugestões é inferior a 0,5%.

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“Nossas diretrizes definem as regras usadas no YouTube e abrem espaço para diversas opiniões. Nossos revisores estão espalhados pelo mundo, e aplicamos nossas políticas de conteúdo com consistência, independentemente de porta-voz, ponto de vista político, histórico, posição ou afiliações”, diz a empresa.

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Embora o YouTube tenha anunciado a iniciativa #AntesDoSeuPlay, em que diz recomendar “conteúdos informativos de fontes confiáveis e plurais sobre as eleições”, a Jovem Pan tem 13 conteúdos rotulados como “falso” pelas agências de checagem Lupa, Aos Fatos e Projeto Comprova, as principais do país.

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“A Jovem Pan é frequentemente identificada disseminando desinformação. É preciso que o YouTube abra a caixa preta do algoritmo de recomendação, mostre como funciona, quais são os critérios de recomendação utilizados para entendermos o que está acontecendo”, afirma Santini.

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Os conteúdos de teor extremista ou com teorias da conspiração, que despertam emoções fortes, como revolta ou raiva, geram mais engajamento e, em geral, são amplificados pelos algoritmos de redes sociais.

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O YouTube e o WhatsApp são as plataformas que mais preocupam o TSE (Tribunal Superior Eleitoral). O aplicativo de mensagens gera apreensão devido à velocidade de viralização de boatos, apesar dos mecanismos de restrição de encaminhamentos implementados pela empresa.

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A plataforma de vídeos, por sua vez, gera temores pela falta de transparência na moderação e porque há incentivos financeiros para produtores de conteúdo extremista –desinformação dá audiência.

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Ao longo dos meses, houve diversas reuniões entre integrantes do TSE e representantes do YouTube em razão da multiplicação de vídeos com alegações falsas sobre o processo eleitoral e teor golpista.

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No mês passado, a relação com a plataforma melhorou e, segundo monitoramentos acompanhados pelo tribunal, houve uma grande redução no número de vídeos de negacionismo eleitoral na plataforma. A desinformação contra candidatos, algo que não é o foco prioritário do TSE, porém, continua muito alta.

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De acordo com Alexandre Basílio, professor de direito eleitoral e digital em 25 escolas judiciárias eleitorais, se os autores do estudo conseguirem provar que o YouTube não apresenta isonomia no tratamento dos candidatos, será possível entrar com uma representação eleitoral.

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Ainda que a isonomia, por lei, só seja exigida a TVs e rádios de concessão pública, essa interpretação vem mudando, afirma ele.