11/09/2026

Bocudo Caldas

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Em 10 anos, Tinder transformou paquera em jogo e deu mais poder às mulheres

 (FOLHAPRESS) – No meio do trânsito de uma tempestade que caiu em São Paulo em 2014, a consultora Lilian Ribeiro, 37, deu match pelo Tinder com o administrador Rafael Ribeiro, 40, que estava em casa, sem luz e impossibilitado de assistir um jogo de futebol. Em pouco tempo, já estavam morando juntos.

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Casados há sete anos, eles hoje têm dois filhos pequenos. “As pessoas se espantam que nos conhecemos pelo aplicativo e deu certo”, diz ela.

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O aplicativo que conecta casais como Lilian e Rafael completa dez anos nesta segunda-feira (12) e revolucionou a paquera online, antes restrita a sites de namoro -que atraia uma população mais velha.

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Nesta última década, especialistas concordam que o Tinder colocou mulheres heterossexuais no controle da procura e gamificou o flerte em meio a uma sociedade cada vez mais individualista.

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O primeiro aplicativo de relacionamento a utilizar a lógica do GPS, na verdade, foi o Grindr, em 2009, focado no público gay . Mas, foi depois do Tinder que surgiram outros com a mesma lógica, como o Bumble e o Happn.

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Para a psicóloga Lígia Baruch, que estudou o tema no doutorado, os aplicativos mudaram a maneira como as pessoas usam as imagens e como elas se vendem para um relacionamento. “Há uma busca constante por alguém que se encaixe, mas pouca disposição para a construção de relações.”

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Ronaldo Lemos, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro e colunista da Folha, classifica os aplicativos como “revolução feminista”. Se nos sites elas recebiam enxurrada de mensagens sem filtros, já nos aplicativos, elas têm que concordar com o match para dar início ao papo.

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Uma pesquisa divulgada em 2016 pela Universidade Queen Mary, de Londres, mostra que homens costumam dar mais likes no Tinder que as mulheres. Por outro lado, apenas em 0,6% dos casos eles são correspondidos. Já as mulheres, com um comportamento mais seletivo, têm um retorno de 10%.

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Apesar do controle nas mãos delas, os aplicativos não limaram assédios. Outra pesquisa divulgada em 2020 pelo Centro de Pesquisas Pew mostra que 30% dos americanos adultos já usaram sites ou aplicativos. Entre eles, 37% afirmam que foram contatados por um usuário mesmo após manifestarem que não tinham interesse naquela pessoa. E 35% receberam mensagens ou imagens sexualmente explícitas indesejadas.

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Lemos considera que o Tinder gamificou a paquera. Ou seja, o aplicativo proporciona aos usuários uma experiência como a de um jogo que embaralha cartas e vai mostrando pouco a pouco, de acordo com o interesse do usuário.

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Ou seja, o Tinder mostra várias opções que não são interessantes e, de vez em quando, aparecem alguns com poder de retenção alto. “Há uma preferência por conhecer outras por meio do aplicativo e o desafio não é usar o aplicativo, mas deixar de usá-lo”, avalia ele.

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Seja para relacionamentos duradouros, sexo sem compromisso ou passatempo, os aplicativos trouxeram consequências. Ele cita como exemplo o surgimento do termo ghosting -quando uma pessoa corta todas as comunicações com a outra sem explicações.

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“Temos uma dissolução da vida em comunidade e um individualismo exacerbado. O ghosting se torna não só fácil de ser praticado, como representa uma deterioração de práticas comunitárias.”
A produtora de conteúdo Andrea Diniz, 47, também sente essa fragilidade nas relações. Há quase um ano no Tinder, ela conta que já se apaixonou e já se decepcionou com os homens que conheceu no aplicativo.

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Diniz busca um relacionamento sério, mas não tem pressa. “As chances de encontrar homens nessa idade que não seja o ‘tio do pavê’ são baixíssimas”, diz. A maioria dos homens da sua idade, afirma, “procuram por gatinhas” ou não querem nada sério porque vem de relacionamentos longo que se arrastaram.

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Ela nota que, nos aplicativos, muitos deles estão em busca de sexting [envio de mensagens digitais de teor erótico], mas não têm vontade para sair e bater papo. “Tenho me dado melhor no ao vivo”, resume.

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Já a assistente administrativa Mariana Castro, 25, tem um carinho especial pelo aplicativo, pois foi por lá que conheceu a atual namorada Liz Figueiredo, 22, no início de 2021. Elas deram match, mas a conversa não engatou.

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Um dia, Liz foi à farmácia e, coincidentemente, a atendente era Mariana. A partir dali, elas começaram a conversar e logo elas passaram a namorar.

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“Se tem aplicativo para pedir comida, fazer compras, porque não usar para conhecer alguém?”, diz a assistente administrativa, que passou a usar mais o aplicativo durante a pandemia.

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Dados divulgados pelo Tinder apontam que as conversas ficaram 33% mais longas durante a crise sanitária. Procurado, a empresa não divulgou o perfil mais detalhado dos usuários e não quis comentar o tema. Disse apenas que mais de 50% de quem usa o aplicativo têm a idade de Mariana e sua namorada, entre 18 e 25 anos.

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A psicóloga Carla Guth tem um olhar mais crítico aos aplicativos de paquera. Para ela, os filtros e pré-seleções criadas contribuem para um comportamento cada vez mais controlador da sociedade. “Antes, as pessoas tinham vontade de se abrirem. Hoje, elas vêm frustradas porque o outro não atende as necessidades. Nos tornamos controladores e o novo é assustador.”

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Já a fisioterapeuta Cybelle Varonos, 53, considera esses filtros positivos. Quem a encontra no Tinder, já lê: “cansada de pessoas rasas, solteira, sem filhos e 9 tatuagens.” Como não costuma frequentar festas e bares, o aplicativo ajuda a fazer uma espécie de pré-seleção. “Quem não gosta, nem dá like”, diz ela que já se apaixonou, teve relações casuais e fez amigos com o Tinder.

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Ela avalia que o preconceito de quem se conhece pelo aplicativo diminuiu, mas conhecidos ainda perguntam se ela não tem medo de cair em algum golpe. “No bar e na academia não tem perigo? Quem não usa é porque tem medo de se envolver.”