12/09/2026

Bocudo Caldas

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Brasil registra maior taxa de internações de bebês por desnutrição em 14 anos

(FOLHAPRESS) – O Brasil registrou em 2021 a maior taxa de internações de bebês menores de um ano associadas à desnutrição em 14 anos. Foram 113 hospitalizações para cada 100 mil nascidos vivos.

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No total, 2.979 menores estiveram internados por essa causa em todo o ano de 2021. Para efeito de comparação, é como se, diariamente, oito bebês fossem internados por problemas relacionados à desnutrição.

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Em 2008, o índice era de 102 hospitalizações para cada 100 mil nascidos vivos. A taxa caiu e atingiu seu menor patamar em 2011, com 75 internações. Um ano depois, o valor voltou a subir e assim se manteve de forma paulatina até chegar ao observado no ano passado.

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As informações são do Observa Infância, uma iniciativa da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) com a Unifase, com informações coletadas de banco de dados públicos. Além de desnutrição, o levantamento considera as internações causadas por outras deficiências nutricionais e sequelas que a desnutrição deixa nos bebês.

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Cristiano Boccolini, pesquisador de saúde pública da Fiocruz e coordenador do Observa Infância, elenca algumas razões para o aumento no índice. Uma delas é o aumento dos preços dos alimentos, o que dificulta a manutenção de uma dieta adequada.

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A diminuição na renda das famílias e o crescimento do emprego informal também colaboram para maior dificuldade financeira. O cenário ocasiona índices mais graves de insegurança alimentar e fome.

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Por exemplo, uma pesquisa da Rede Penssan (Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional) já concluiu que a fome ronda 1 a cada 3 famílias brasileiras com crianças de até dez anos.

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Boccolini também cita as diferenças entre os programas de transferência de renda Bolsa Família e o Auxílio Brasil. No primeiro programa, que foi descontinuado com a criação do Auxílio Brasil pelo governo Bolsonaro, crianças de até sete anos precisavam ir, a cada seis meses, a uma unidade de saúde para fazer avaliação nutricional.

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Com o Auxílio Brasil, essa obrigação acabou. “O monitoramento da situação nutricional das crianças diminuiu. Então aqueles casos de desnutrição que poderiam ser resolvidos na atenção primária deixam de ser identificados e rebatem na atenção hospitalar”, explica Boccolini.

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Os dados de 2022 também foram coletados, mas as informações são restritas até 30 de agosto. Mesmo assim, os números continuam altos -já foram 2.115 hospitalizações de bebês por desnutrição.

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Embora a quantidade seja menor do registrado em 2021, a média diária supera aquele ano, porque os dados são referentes somente até o oitavo mês deste ano. Até então, foram quase nove internações a cada dia no ano atual.

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Desigualdades regionais e raciais A pesquisa observou que as internações dos menores mantêm padrões de desigualdades de acesso à saúde já enxergadas em outras pesquisas.

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Uma delas é em relação aos números de internações por cada região do país. Em 2021, o Nordeste registrou a maior média, com cerca de 171 hospitalizações para cada 100 mil nascidos. O volume supera a média nacional e destoa do Sudeste, região com índice de 72.

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Questões raciais também foram levantadas. Entre janeiro de 2018 e agosto deste ano, 2 em cada 3 bebês internados por desnutrição eram negros.

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Mas ainda há outro problema: nem todos os casos contam com registros de raça ou cor. Em média, em cada 3 casos, 1 não tem essa informação. “A primeira coisa que chama atenção é que precisamos melhorar os dados”, resume Boccolini.

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Aumento de hospitalizações, queda nas mortes Embora mais bebês tenham sido internados por desnutrição, isso não se converte em mortes. O levantamento concluiu que a taxa de mortalidade do país por essa causa em menores de um ano está em queda de 2008 até 2020, último ano com informações disponíveis.

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“Se temos um aumento da taxa de hospitalização e uma diminuição na mortalidade, podemos dizer que o SUS tem melhorado a sua eficiência […] em evitar que os casos de desnutrição grave evoluam para um desfecho como a morte”, diz Boccolini.

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No entanto, as desigualdades regionais também imperam em relação à mortalidade. O Norte apresenta uma taxa de 12 bebês mortos por desnutrição a cada 100 mil nascidos vivos, a maior do país. No Centro-Oeste, esse índice é de cerca de 1 a cada 100 mil.

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Para o pesquisador, chama atenção a região Norte ter a maior taxa de mortalidade por desnutrição em bebês do Brasil, já que é o Nordeste que registra maior índice de hospitalizações.

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O cenário poderia ser um cenário de uma maior dificuldade no acesso à saúde público no Norte. “Enquanto as taxas de hospitalização por desnutrição no Nordeste são maiores, os índices de mortes são superiores no Norte. Isso pode indicar a questão de acesso ao serviço de saúde”, resume Boccolini.