Minha vida de torcedora é marcada por decisões de ordem emocional. Não que me seja uma exclusividade. O que relato é bem comum, ao menos no Brasil.
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É compreensível que filhos herdem o time dos pais. O que mais se vê são famílias inteiras entoando o mesmo hino e meu percurso não fugiu à regra. Mas não dura para sempre.
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Quando me dei por gente, por volta de três anos de idade, já torcia pelo Vasco. Típico de uma boa filha única de um vascaíno doente, desses que secam o Flamengo em todos os jogos que passam na tevê.
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Por falar em Flamengo, na adolescência percebi que as pessoas mais legais eram flamenguistas. Eu, menina do subúrbio do Rio de Janeiro, ia até a Zona Sul da cidade para visitar minhas tias rubro-negras, muito mais descoladas e divertidas que o meu problemático velho. Minha fase antipai não me permitira continuar vascaína e eu vesti a alma de vermelho e preto. Adulta, andei dizendo em alto e bom tom que meu sonho era ter uma camisa oficial do clube. Fosse por desconfiança ou pobreza dos que me cercavam, de nada adiantou o anúncio, nunca fui agraciada com o presente.
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Aos quase trinta anos, subi a serra e troquei o Flamengo por dois times de futebol — e não é porque valesse por dois: tamanho de torcida e monte de títulos não me impressionam. Já deve estar claro que minhas escolhas dão-se menos por conquistas coletivas que revoluções próprias.
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Primeiramente, vim morar em Nova Friburgo. Cidade bonita, segura, natureza mais preservada que a média e povo agradável. Logo fiz dois filhos e aloquei o Friburguense no meu coração. Não dá para viver aqui sem torcer pelo Frizão. Ainda por cima, o estádio fica no caminho de casa. Não teve jeito, adotei o Tricolor da Serra.
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Mas nada se compara à derradeira virada de casaca: além de torcer pelo Friburguense porque a cidade é minha pátria, a paixão que encerrou os treinos do passado sem deixar espaço para reviravoltas só poderia ser o…
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Antes da revelação, devo antecipar minha defesa contra quem me acusar de me prender a tudo menos ao clube em si. Pode até ser a primeira impressão de quem lê esta crônica, afinal, peguei o time do meu marido e o chamei de meu.
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Fui apresentada a um clube grande, tradicional e campeão, que busca a inovação enquanto padece de uma sede de títulos após um passado glorioso. Vibrar por ele me inspira a ser e agir como os seus simpáticos torcedores que persistem na luta com leveza. Zoam e são zoados sem que se torne motivo para violência. Mesmo perdendo (e como!), seguem com seus ídolos, sem perder de vista que a culpa é sempre dos cartolas. As dívidas astronômicas não apagam sua história nem mancham o passado estelar de clube que mais jogadores enviou para a seleção brasileira. E é um dos mais profícuos em produção de memes, importante critério na atualidade.
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Sim, leitores, sou Botafogo de Futebol e Regatas. Ao ponto de me emocionar com os cantos e ser tomada pela energia que emana da massa alvinegra pronta para dar aquela moral à equipe.
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Espero que este relato me poupe em definitivo dos meus amigos: “Você não era Vasco que nem teu pai? Não era flamenguista? E aquela camisa do Friburguense, fez o que com ela?”
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A escolha do time não tem a ver com estatísticas de desempenho. Há muito de identificação pessoal, partilha de valores e até química. É quase uma questão de pele.
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