11/09/2026

Bocudo Caldas

Magazine Digital

Denunciantes de assédio na Caixa repudiam fala de Bolsonaro

SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) – Em carta aberta, denunciantes no caso de suposto assédio envolvendo o então presidente da Caixa Econômica Federal, Pedro Guimarães, consideraram “estarrecedora” a declaração feita pelo presidente Jair Bolsonaro (PL) sobre o caso.

n

n

Em entrevista ao site “Metrópoles”, exibida nesta segunda-feira (24), Bolsonaro disse que não viu “nada de contundente” nas denúncias que foram apresentadas. Na ocasião, as mulheres relataram toques indesejados e convites inapropriados em eventos, gabinetes, garagem e dentro de carro da Caixa.

n

Nesta terça-feira (25), as denunciantes reagiram com “revolta” e “indignação” à fala do mandatário e lamentaram que tenham tido a sua palavra posta em dúvida em contribuição ao processo de revitimização.

n

“Acima de tudo, é motivo de indignação e revolta que, ao minimizar a dor e o sofrimento já expressos em inúmeros depoimentos perante a Corregedoria da Caixa, o Ministério Público do Trabalho e, no âmbito criminal, o Ministério Público Federal, as vítimas tenham sua palavra posta em dúvida em contribuição ao processo de revitimização que um Presidente da República deveria ter como compromisso combater”, disseram as denunciantes.

n

Na semana passada, a Caixa confirmou o encerramento das investigações internas sobre as denúncias de assédio moral e sexual de Guimarães contra servidores da instituição, mas evitou divulgar a conclusão.

n

“O banco não divulga o documento, pois somente as autoridades competentes poderão quebrar o sigilo do conteúdo”, disse o banco, em resposta por escrito.

n

A informação foi antecipada pela revista Veja. Segundo a reportagem, o relatório enviado ao Ministério Público tem 490 páginas.

n

Guimarães foi exonerado da presidência da Caixa no dia 29 de junho após o portal Metrópoles revelar que o MPF investigava as denúncias de abuso. Daniella Marques o substituiu no cargo.
*
ÍNTEGRA DA CARTA

n

À vista de recente entrevista concedida pelo Sr. Presidente da República, Jair Messias Bolsonaro, ao Portal Metrópoles na qual é por ele afirmado não existir “nada de contundente” nas denúncias feitas daquele que ficou publicamente conhecido como o escândalo de assédio sexual na Caixa e no qual é investigado o ex-presidente daquele órgão, Sr. Pedro Guimarães, em nome e a pedido das VÍTIMAS que representamos na esfera criminal neste caso, temos a dizer:

n

Um, ser estarrecedor que para o Mandatário da nação não sejam contundentes atos relatados e atribuídos ao presidente de uma instituição do porte da Caixa, que deveria ter instrumentos de controle e governança eficientes, consistentes em violações profundas aos corpos, às imagens e à intimidade de servidoras do órgão;

n

Dois, ser motivo de tristeza que condutas como apalpar seios e nádegas, beijar e cheirar pescoços e cabelos, convocar funcionárias até seus aposentos em hotéis sob pretextos profissionais diversos e recebê-las em trajes íntimos, além de constantes convites para “massagens”, “banhos de piscina” ou idas a “saunas” sejam naturalizados e tidos, repetimos, como “não contundentes” pelo Chefe do Poder Executivo;

n

Três, acima de tudo, é motivo de indignação e revolta que, ao minimizar a dor e o sofrimento já expressos em inúmeros depoimentos perante a Corregedoria da Caixa, o Ministério Público do Trabalho e, no âmbito criminal, o Ministério Público Federal, as vítimas tenham sua palavra posta em dúvida em contribuição ao processo de revitimização que um Presidente da República deveria ter como compromisso combater.

n

Por fim, em respeito à voz das vítimas reproduzimos integralmente parte sua manifestação: “Seria contundente, senhor Presidente da República, se o fato ocorresse com sua esposa ou filha? Acreditamos que sim. Pois saiba que além de mulheres, também somos esposas, filhas, mães e profissionais que foram abusadas, lesadas e agredidas pela conduta de alguém que deveria ser líder, mas que optou por ser algoz. E, assim como em suas duras e desprezíveis palavras, fomos desacreditadas e relegadas à nossa própria sorte pela instituição que deveria garantir nossa integridade. Mas não nos calamos e não iremos nos calar. A verdade, apenas a verdade, é suficientemente contundente para fazer justiça e para que outras mulheres não sofram o mesmo que nós.

n

Brasília, 25 de outubro de 2022.