04/11/2026

Bocudo Caldas

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Rãs guardadas em museu podem explicar o sumiço de anfíbios na Mata Atlântica há décadas



 

Entre 1979 e 1982, populações de rãs da Estação Biológica de Boracéia, na Mata Atlântica paulista, sofreram declínios severos. Durante quase meio século, ninguém conseguiu explicar o motivo.

Agora, anfíbios preservados há décadas em um museu dos Estados Unidos apontam o provável culpado: o fungo causador da quitridiomicose, doença que devastou populações de anfíbios no mundo todo. O estudo, publicado na revista Molecular Ecology, foi feito por pesquisadores do Centro de Genômica da Conservação do Zoológico Nacional e Instituto de Biologia da Conservação do Smithsonian (NZCBI) e da Universidade Estadual da Pensilvânia. Os autores não descartam que o ambiente também tenha influenciado. Os dados, porém, indicam que o fungo se espalhava pela região na mesma época em que as rãs sumiram.

A Mata Atlântica é uma das regiões mais ricas do planeta em diversidade de anfíbios. Isso torna o mistério de Boracéia ainda mais relevante.

A quitridiomicose, chamada simplesmente de quitrídio, é provocada por um fungo microscópico, o Batrachochytrium dendrobatidis. Os cientistas acreditam que ele surgiu na Ásia e se espalhou pelo mundo nas décadas de 1970 e 1980. O problema é que o fungo só foi identificado e descrito formalmente em 1999. Até lá, centenas de espécies de anfíbios já tinham sido empurradas para a extinção, e algumas já haviam desaparecido por completo.

Como tantas populações colapsaram antes que alguém soubesse da existência do fungo, provar que ele foi o responsável sempre foi difícil.

“Depois de quase 50 anos, ainda não temos certeza do que causou muitas das mortes em massa de anfíbios no passado, o que faz desses declínios alguns dos casos arquivados mais duradouros da epidemiologia da vida selvagem”, afirmou Jack Boyette, bolsista de pós-graduação do NZCBI e doutorando na Universidade Estadual da Pensilvânia, que liderou a pesquisa.

Exemplares coletados antes e depois do sumiço guardavam a pista

Para Boracéia, alguns pesquisadores já tinham sugerido que mudanças climáticas ou eventos extremos de tempo teriam provocado os desaparecimentos. Para testar a hipótese do fungo, a equipe recorreu a uma fonte inesperada: os animais guardados nas coleções do Museu Nacional de História Natural do Smithsonian.

Esses exemplares foram coletados por William Ronald Heyer, ex-curador de anfíbios e répteis do museu. Ele fez cinco expedições a Boracéia. Duas aconteceram nos anos 1970, antes dos grandes declínios, e três nos anos 1980, depois das mortes em massa. Isso deu aos cientistas algo raro: um retrato do antes e do depois.

A equipe analisou amostras de mais de 370 anfíbios preservados, de 17 espécies, em busca de sinais de infecção pelo quitrídio. A ideia era descobrir quando o fungo chegou e com que velocidade se espalhou.

O resultado foi claro. Nenhum exemplar coletado antes de 1979 tinha o fungo. Entre os coletados nos anos 1980, mais da metade testou positivo.

As espécies que mais sumiram não tinham sinal do fungo

Havia, porém, um detalhe que parecia não fechar. As espécies que sofreram os declínios mais severos não mostraram nenhum sinal detectável de infecção nos exemplares do museu. Já as espécies cujas populações ficaram relativamente estáveis carregavam o fungo com frequência. Isso derruba a hipótese do quitrídio?

Segundo os pesquisadores, não. A explicação estaria na forma como cada espécie reage à doença.

“É importante lembrar que nem todas as espécies sofreram perdas catastróficas em Boracéia”, disse Boyette. “As espécies que não declinaram podem ter tolerado naturalmente o fungo, o que permitiu que fossem infectadas sem sofrer mortalidade em massa. Em contraste, as espécies que declinaram de forma mais dramática podem ter sido tão suscetíveis que as rãs infectadas morreram antes que Heyer pudesse coletá-las.”

Em outras palavras, o fungo teria se espalhado rapidamente entre rãs com pouca exposição anterior à doença, com consequências potencialmente devastadoras para as espécies incapazes de resistir.

Para Michael Campana, especialista em genômica do NZCBI que participou do trabalho, o caso mostra o valor das coleções de história natural. Exemplares guardados há décadas podem conter evidências biológicas que ninguém na época tinha como reconhecer. Hoje, técnicas modernas permitem revisitar esse material e investigar surtos ocorridos antes mesmo da descoberta dos patógenos.

“Os coletores dos museus não poderiam prever o quanto suas coleções seriam importantes para os nossos desafios atuais de conservação, mas, sem elas, nunca conseguiríamos detectar patógenos que passaram despercebidos por décadas e reconstruir surtos de doenças que, de outra forma, continuariam um mistério”, afirmou Campana.

Entender esses surtos do passado também pode ajudar a antecipar ameaças futuras. Uma preocupação crescente é outro fungo, o B. salamandrivorans, que ameaça salamandras na Europa e pode representar um sério perigo para as da América do Norte. Saber como doenças parecidas surgiram, se espalharam e afetaram espécies diferentes pode permitir reagir antes que o estrago se alastre.

A maioria das rãs de Boracéia voltou, mas cinco espécies seguem sumidas

Apesar das perdas de décadas atrás, a pesquisa trouxe sinais animadores. Em parceria com pesquisadores da Universidade de São Paulo, a equipe visitou Boracéia seis vezes entre 2022 e 2024 para ver quais anfíbios vivem ali hoje. Das 17 espécies presentes na coleção de Heyer, 12 foram encontradas.

Os levantamentos indicam que a maior parte das espécies se recuperou desde os declínios do início dos anos 1980. O fungo não foi embora: as infecções continuam presentes entre as rãs locais. O padrão de infecção, segundo os pesquisadores, sugere que espécies antes muito afetadas pela doença podem ter desenvolvido maior tolerância ao longo de gerações sucessivas.

As outras cinco espécies não apareceram nas buscas. Seu status atual é incerto, e há a preocupação de que algumas possam ter desaparecido completamente do local.