11/09/2026

Bocudo Caldas

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Inovadoras nos negócios, startups brasileiras ainda são tímidas na diversidade

(FOLHAPRESS) – Mapeamento feito pela Abstartups (Associação Brasileira de Startups) entre agosto e setembro do ano passado, com cerca de 2.500 empresas no país, mostrou que, apesar de 96,8% dos fundadores declararem que seus negócios apoiam a diversidade, 60,7% não têm ações voltadas à inclusão.

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A falta de planejamento para fazer contratações mais plurais contribui para o cenário, mas não responde sozinha por ele. Segundo a vice-presidente da Abstartups, Ingrid Barth, a composição inicial desses empreendimentos reproduz a falta de diversidade de seus fundadores.

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Mulheres, por exemplo, ainda são minoria em profissões relacionadas à ciência e à matemática -o que acaba por se refletir no ambiente em que são criadas as startups, empresas inovadoras que muitas vezes têm tecnologia como base, diz Barth.

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A pesquisa da Abstartups aponta ainda que 19,1% dos negócios ouvidos não tinham nenhuma mulher na equipe e só 21% as tinham como maioria em sua composição -elas correspondiam, em 2021, a 51,1% da população, segundo projeção da Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua).

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Depois do resultado do mapeamento, a Abstartups lançou um guia de referência sobre diversidade, com diretrizes para associados trabalharem a inclusão nas empresas.

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Sócia da consultoria Indique uma Preta, que conecta profissionais e empresas, Dani Mattos diz que existe, muitas vezes, uma falsa impressão de diversidade nas startups.

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“A gente vê clientes que contratam pessoas jovens e mais progressistas e pensam ‘nós já somos diversos'”, diz. Mas, para ser efetiva, a diversidade precisa refletir a composição da sociedade, afirma.

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A especialista diz também que muitas dessas empresas não colocam programas de inclusão em prática por falta de conhecimento sobre como criar metas e tirá-las do papel e por receio de embarcar em processos complexos -como a adaptação dos espaços, para que sejam acessíveis.

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Para Mattos, o processo de ampliação da diversidade não pode estar restrito a grupos de discussão -e, sim, deve ser capaz de promover uma mudança de cultura na empresa.

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A discussão em torno de práticas ESG, sigla em inglês para governança ambiental, social e corporativa, também tem pressionado startups para que elas desenvolvam negócios diversos, não apenas disruptivos e escaláveis.

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A economista Amanda Graciano, sócia da Fisher Venture Builder, especialista em conectar startups e corporações, diz que o mercado tem esperado que os investimentos gerem retorno financeiro e também impacto positivo.

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Além de mais diversidade entre funcionários, a expectativa é ter inclusão em cargos de liderança, na diretoria e até na composição societária.

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Mas, quando empresas estabelecem requisitos como cursos de idiomas e MBA para cargos de direção, elas limitam o perfil desses postos, porque poucos profissionais têm acesso a esse tipo de educação, acrescenta Graciano.

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A pesquisa da Abstartups mostra ainda que, entre os sócios-fundadores, 73,8% são homens, 92,1% são heterossexuais e 69% são brancos. Pretos e pardos somam 25%. Segundo a Pnad Contínua de 2021, 56,1% da população se declara preta ou parda.

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A Movile, investidora que controla marcas como iFood, Sympla e Playkids, tem um programa de aceleração de lideranças que desenvolve habilidades pessoais e profissionais de funcionários negros.

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A primeira turma, que terminou a formação no mês passado, conta com 30 gerentes e gerentes-sêniores. A meta é que ao menos 70% deles assumam uma posição superior em até dois anos.

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Para Angélica Souza, líder de diversidade, equidade e inclusão da empresa, políticas como essa ajudam na retenção de talentos.

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“Não adianta ter uma única pessoa [que representa minoria ou grupo minorizado] em uma sala. Essa pessoa não consegue ter voz, não consegue se posicionar para trazer suas ideias e não é ouvida. Para a diversidade ser efetiva no ambiente, é preciso um grupo para validar e dar suporte.”

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Estudos mostram, diz ela, que ao menos 30% de uma equipe deve ser composta por grupos subrepresentados para que ela seja efetivamente diversa.

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Victoria Napolitano, 26, mulher trans, assumiu no fim de 2021 o cargo de coordenadora de diversidade, equidade, inclusão e bem-estar na techfin (empresa de tecnologia e dados que oferece serviços financeiros a outros negócios) Pismo, seis meses depois de ser contratada como analista-sênior de recursos humanos.

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Antes, ela atuou em uma fintech de grande porte por três anos, depois de participar de uma seleção para pessoas trans do programa Trans- Emprego. Victoria conta que passou por situações desconfortáveis nesse ambiente.

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Segundo ela, muitas vezes o peso de explicar aos colegas de trabalho sobre conceitos relativos a essa comunidade fica nas costas desse grupo -o que é cansativo e prejudica a inclusão, diz.

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Victoria entrou no setor de startups em 2019, depois de participar de uma edição do programa Women Will, do Google, voltado a mulheres trans, com treinamento de habilidades digitais e mentorias. A iniciativa foi essencial para que ela refletisse sobre sua perspectiva profissional, conta.

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“Sempre foi muito difícil ter aspirações ou pensar onde eu ‘posso estar’, justamente pela falta de representatividade e visibilidade de que pessoas trans podem crescer fora de espaços marginalizados.”

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Ela diz que startups ainda avançam a passos lentos rumo à inclusão porque não tratam a diversidade como outras áreas, de forma técnica, com investimento em contratações e programas de treinamento profissional.
“Só vamos chegar lá nos próximos anos se pensarmos em meta, análise de dados, planejamento. Somos diruptivos nos negócios, mas muito conservadores nos programas de diversidade.”

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Hoje à frente da área de diversidade na Pismo, Victoria conduz um programa de mentorias em parceria com a ONG Educação TRANSforma, que capacita pessoas para o mercado de TI e ajuda a fazer contratações. Depois de realizar uma pesquisa com colaboradores, ela está estabelecendo métricas e parâmetros que serão usados nas políticas de inclusão da empresa.