11/09/2026

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Céticos com o futuro, 76% dos jovens dizem querer deixar o Brasil, indica Datafolha

FERNANDO CANZIAN
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Pesquisa Datafolha entre jovens brasileiros revela uma perturbadora discrepância, capaz de gerar frustração no futuro, entre expectativas pessoais muito positivas e elevado pessimismo em relação ao Brasil.

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Embora 67% dos jovens entre 15 e 29 anos esperem que sua situação pessoal esteja muito melhor daqui a dez anos (e 65% achem o mesmo sobre sua situação financeira), só 25% acreditam que o Brasil terá desempenho semelhante no período.

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Segundo o Banco Mundial, cada ano adicional de estudo no Brasil representa até 15% a mais na renda futura, acima dos 8% na média global. A diferença se dá pelo fato de o Brasil ter menos adultos qualificados; os que são acabam valendo mais.

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Entre os jovens brasileiros, apenas 19% acham que estudar é a única forma de obter mais renda no futuro, enquanto 50% dizem que só podem conquistar o que desejam trabalhando. Como atenuante, 67% concordam que estudar é uma das formas de obter mais renda, mas não a única.

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Além da situação socioeconômica dos jovens, o Datafolha levantou uma série de informações sobre essa parcela da população em saúde, comportamento, tecnologia e cultura, além de temas polêmicos, como aborto e drogas. Os resultados da pesquisa serão publicados nos próximos dias em uma série de reportagens da Folha.

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No levantamento, foram ouvidos mil jovens entre 15 e 29 anos em 12 de algumas das maiores capitais do país, tendo a pesquisa margem de erro de 3 pontos percentuais, para mais ou para menos.

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Para especialistas, o otimismo dos jovens sobre sua situação pessoal futura não corresponde à realidade atual. Seja no mercado de trabalho ou na educação.

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A partir da recessão de 2014-2016, os jovens trabalhadores foram os que mais perderam renda (-26,5% entre 2014 e 2019) e sofreram com o desemprego. A taxa de desocupação daqueles entre 18 e 24 anos era de 19,3% ao fim do segundo trimestre, mais que o dobro da média geral (9,3%).

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Na educação, dados do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) mostram que a taxa de abandono escolar mais que dobrou em 2021, de 2,3% (2020) para 5,6%.

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Com a pandemia, o Brasil foi um dos países que por mais tempo manteve as escolas fechadas, o que também refletiu negativamente nos dados do Inep para o desempenho dos alunos nas escolas, tanto públicas quanto privadas.

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Segundo o Datafolha, mais da metade (51%) dos jovens está fora da escola, embora a taxa seja menor entre os de 15 a 19 anos (21%). Na faixa de 20 a 24 anos, jovens que, em tese, deveriam estar na faculdade, 57% já não estudam mais.

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Para Naercio Menezes Filho, diretor do Centro de Pesquisa Aplicada à Primeira Infância do Insper, é preocupante que os jovens estejam deixando de acessar cursos superiores. Segundo ele, entre aqueles com 22 anos, só 25% têm ingressado em universidades –e apenas 20% acabam se formando.

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“No Brasil, o curso superior representa, em termos salariais, uma multiplicação média de três vezes. Os jovens precisam ser informados de que existirão cada vez menos empregos de longo prazo; e que uma carreira em qualquer área, mesmo mudando de empresa, exige cada vez mais educação.”

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Segundo Elizabeth Guedes, presidente da Anup (Associação Nacional das Universidades Particulares), que reúne 253 faculdades, os últimos dez anos registram queda de até 40% no total de alunos.
Guedes afirma que a estratégia das universidades tem sido modificar, criar e oferecer mais cursos voltados às demandas do mercado de trabalho. “É o mercado que tem colocado a lanterna na direção que temos de seguir”, afirma.

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Galeria Sonho com engenharia e medicina acabou em informalidade e baixo rendimento Jovens enfrentam enorme barreira para entrar na faculdade e melhorar chances futuras.

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Em 69 universidades federais, dados do Inep mostram que o total de estudantes matriculados caiu de 1,3 milhão em 2019 para 1,2 milhão em 2020.

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Mesmo entre os jovens que ainda estudam ou estudaram, quase a metade (46%) não acredita que a escola os tenha preparado para ser bons profissionais. Grande parte dos que só trabalham (47%) ou trabalham e estudam (32%) o fazem em serviços gerais, que normalmente exigem menos qualificação e pagam salários menores.

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“O retorno da educação no Brasil é gigantesco, e não há política pública que informe sobre a importância disso na vida futura”, afirma Marcelo Neri, diretor da FGV Social.

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Segundo ele, os jovens brasileiros sempre aparecem em pesquisas internacionais como os mais otimistas. Em levantamento Gallup em 117 países em 2020, brasileiros entre 15 e 29 anos deram nota de 8,9 (numa escala de 1 a 10) para suas expectativas cinco anos à frente. A média global era 7,5%.

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“Quando se é muito otimista, a possibilidade de frustração é maior”, afirma Neri. “Basicamente, existem duas maneiras de subir na vida: estudar para ter um bom emprego e poupar. Quando se é muito otimista, o risco é não fazer nem uma coisa nem outra.”

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Para Laura Muller Machado, professora do Insper e secretária de Desenvolvimento Social do estado de São Paulo, um dos problemas fundamentais do ensino hoje, além da queda geral no aprendizado agravada pela pandemia, é a inexistência de conexão entre as escolas e o mercado de trabalho.

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Segundo o relatório Education at a Glance, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, só 8% dos jovens brasileiros concluem algum tipo de ensino técnico ou profissionalizante, ante 40% na média de 38 países.

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Entre 2011 e 2016, no governo Dilma Rousseff, o Brasil chegou a investir R$ 38,5 bilhões no Pronatec para treinar 9,7 milhões de estudantes do ensino médio da rede pública e beneficiários de programas federais de renda.

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Mas, segundo pesquisa de Fernando de Holanda Barbosa Filho, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas, alunos que terminaram o Pronatec numa janela de 6 a 23 meses não apresentaram avanços em termos de renda ou empregabilidade.
Uma das únicas experiências bem sucedidas, que envolveu 300 mil alunos entre 2014 e 2015, partiu do mapeamento nas empresas da demanda efetiva por trabalhadores, levando-se em conta especialidades e localização geográfica, para só depois iniciar o treinamento.

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Em relação ao otimismo dos jovens com seu próprio futuro, Laura Machado afirma: “Infelizmente, não existe nenhuma informação objetiva que possa levar à melhora da situação deles no curto prazo. Os estudantes estão saindo de escolas ruins para um mercado de trabalho também ruim, que vai penalizá-los.”

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Uma das poucas boas notícias vem da demografia, que trará redução acentuada no total de jovens nos próximos anos, de cerca de 49 milhões atualmente para 38,2 milhões em 2049.

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“É possível que o jovem do futuro acabe valorizado, seja por uma questão de falta de mão de obra ou pelo fato de eles serem bem mais conectados”, afirma Neri, da FGV Social.