11/09/2026

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Incêndios no Pantanal afetaram quase metade da população de onças-pintadas

(FOLHAPRESS) – Quase metade da população de onças-pintadas do Pantanal foi afetada diretamente pelos incêndios que devastaram a região em 2020, indica um estudo feito por cientistas brasileiros. O impacto pode ter sido ainda maior nas reservas ambientais pantaneiras onde o maior carnívoro do Brasil vive.

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Os cálculos são preocupantes porque o Pantanal é um dos últimos grandes refúgios da espécie no país, ao lado da Amazônia –em outros ecossistemas brasileiros, populações de onças-pintadas raramente são encontradas. Além de mortes dos grandes felinos causadas diretamente pelo fogo, a destruição de áreas que antes tinham condições ideais para a sobrevivência deles pode levar os animais à morte de forma indireta ou impedir que eles achem parceiros para se reproduzir.

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“Além de avaliar o impacto do fogo sobre as onças-pintadas do Pantanal de forma comparativa ao longo dos anos, a pesquisa analisa também como esse impacto pode ser negativo para espécie se ocorrer de maneira descontrolada, com alta frequência e intensidade”, disse à reportagem o primeiro autor da pesquisa, Alan Eduardo de Barros, doutorando do Departamento de Ecologia do Instituto de Biociências da USP.

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O trabalho de Barros, que assina o estudo junto com seu orientador, Paulo Inácio Barros, e outros pesquisadores do Brasil, dos EUA e do Paraguai, acaba de sair na revista científica Communications Biology. A equipe combinou dados de satélite sobre os incêndios pantaneiros de 2020 com informações sobre a população das onças da região e sobre os deslocamentos dos bichos pelo território.

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Esses detalhes vêm de estudos feitos em anos anteriores ao desastre causado pelo fogo. Como não é possível fazer um censo, contando cada indivíduo da espécie cabeça por cabeça, um desses trabalhos fez estimativas com base em armadilhas fotográficas, aparelhos que registram a presença de um animal em determinados pontos graças a câmeras com sensores de movimento.

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Além das armadilhas fotográficas, esse estudo levou em conta ainda a presença de cobertura vegetal considerada adequada para as onças-pintadas, entre outros fatores.

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Na verdade, diz Barros, “eles subestimam um pouco a densidade populacional no Pantanal, por dois motivos”.

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Primeiro, o estudo anterior propõe que, no máximo, haveria 7 onças a cada 100 km2 na região. “Mas pesquisas mais recentes mostram áreas desse tamanho com quase 13 indivíduos”, conta ele. Além disso, o trabalho assume que os felinos seriam mais numerosos em áreas de mata fechada, o que não é verdade no caso do Pantanal, mais aberto, porém com abundância de recursos para as onças.

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Levando tudo isso em conta, calcula-se que haveria 1.668 indivíduos da espécie no Pantanal. Desses, 48 onças têm sido acompanhadas ao longo dos anos por meio de colares com GPS e tiveram definidas suas áreas de vida, ou seja, o território pelos quais se deslocam com frequência em busca de comida, abrigo e parceiros.

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A combinação de todas essas informações mostrou que as regiões que seriam o habitat de 45% das onças-pintadas pantaneiras –ou 746 indivíduos– foi diretamente impactado pelos incêndios de 2020. É consideravelmente mais do que a área total do Pantanal que foi afetada então (cerca de um terço). É um estrago três vezes maior do que a média das áreas afetadas por incêndios no ecossistema nos 15 anos anteriores.

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Pior ainda, das 48 onças monitoradas por GPS, 38 tiveram suas áreas de vida, que deveriam ser seus principais refúgios, diretamente afetadas pela queima da vegetação e do solo. E mais da metade das reservas sob proteção ambiental que fazem parte dessas áreas de vida também sofreu os efeitos dos incêndios.

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Ainda não há indícios de que as onças monitoradas tenham morrido, embora esse tenha sido o destino de dois animais da espécie que foram resgatados com queimaduras em 2020. É muito provável que isso seja apenas a ponta do iceberg. Uma estimativa recente sugere que 17 milhões de vertebrados podem ter morrido no desastre daquele ano.

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“Acredito que o maior impacto do fogo na população de onças tenha sido a necessidade de procurar novas áreas com mais recursos”, explica o pesquisador da USP.

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Ela explica que nem sempre as onças são caçadores totalmente solitários. Quando há abundância de alimento –é esse o caso do Pantanal normalmente, quando ele não está ardendo em chamas– existe alguma sobreposição de territórios entre animais adultos. A região, inclusive, é onde se encontram os maiores indivíduos da espécie.

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No entanto, se incêndios como esses se repetirem com frequência, a situação pode ficar muito feia.
“A briga por áreas verdes, pela proximidade da água e por fêmeas, bem como o próprio gasto de energia dos animais, podem se intensificar muito rapidamente”, analisa ele. “Se o ambiente se recupera, a população tenderia a retornar ao ponto de equilíbrio, mas, do contrário, ele poderia se modificar, comportando um número menor de indivíduos.”

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Evitar esse tipo de desequilíbrio deve ficar mais complicado nas próximas décadas, já que a crise climática provocada pela ação humana tem aumentado o número de eventos extremos do clima, inclusive grandes secas, que facilitam os incêndios. A escala e os locais dos fogos no Pantanal em 2020, entretanto, indicam que, em grande, eles foram provocados diretamente por seres humanos, como os proprietários rurais da região.