11/09/2026

Bocudo Caldas

Magazine Digital

Queda de 70% nas ações e prejuízo de R$ 2 bi: o que há com a Natura?

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Maria Aparecida Pereira Toscana, 59 anos, não faz ideia de quem seja Fabio Barbosa. Não sabe que o comando das marcas Natura e Avon, que ela revende há quase 30 anos, passou há cinco meses às mãos do executivo -que traz no currículo a presidência do Santander Brasil e da Febraban (Federação Brasileira de Bancos).

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Mas existe uma coisa que ela tem estranhado: o preço dos produtos já subiu duas vezes neste ano e deve subir a terceira em dezembro. “E muito produto tem ficado em falta. Mal começa um ciclo de promoções, de que todo mundo está atrás, e eu quase não consigo fechar o primeiro pedido, já esgotou”, diz Cida, dona de um ponto de venda em uma galeria, na zona oeste de São Paulo. “Ou os produtos estão com limite de compra, o que é ruim, porque não consigo atender minhas clientes.”

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As observações de Cida refletem a ponta de um iceberg que a multinacional brasileira de cosméticos Natura&Co. -dona das marcas Natura, Avon, The Body Shop e Aesop- vem tentando contornar com mais afinco desde a contratação de Barbosa, que já fazia parte do conselho de administração da companhia.

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A inflação crescente nos principais mercados do grupo -Europa e América Latina-, acompanhada do impacto cambial, do aumento do preço de matérias-primas e commodities, como óleo de palma, resinas e plásticos, têm comprometido as margens da multinacional brasileira.

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Outros impactos são a guerra na Ucrânia (que aumentaram os custos com energia, por exemplo) e a queda no poder de compra da população.

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O resultado foram menos promoções e falta de produtos com preços atrativos.

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A julgar pelos resultados do terceiro trimestre da companhia, divulgados na noite de quarta-feira (9), ainda há muito trabalho a fazer. O grupo amargou prejuízo de R$ 559,8 milhões entre julho e setembro deste ano, contra um lucro de R$ 272,9 milhões no terceiro trimestre do ano passado. A receita líquida caiu 5,7% no período, na comparação anual, para R$ 9 bilhões.

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O Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização), que mede o potencial de geração de caixa de uma empresa, recuou 5,7%, para R$ 772,5 milhões.

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Apesar de ruins, os números do terceiro trimestre -o primeiro sob a gestão de Barbosa-, são quase um alento considerando o acumulado dos primeiros nove meses de 2022, na comparação anual: prejuízo de R$ 1,97 bilhão (frente a lucro de R$ 352,6 milhões), queda de 9% na receita líquida, para R$ 25,9 bilhões, e Ebitda 20% menor, para R$ 2,06 bilhões.

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“É claro que não estamos satisfeitos com estes números”, disse Barbosa nesta quinta-feira (10), em teleconferência com analistas e, depois, com a imprensa. “Nossa prioridade é melhorar as margens e o fluxo de caixa.”

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Spin-off, IPO ou sócio são opções para a lucrativa Aesop

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Uma queda de quase 70% no valor das suas ações negociadas na B3, a Bolsa de Valores brasileira, separa a Natura de novembro de 2021 da Natura de hoje. Em 10 de novembro do ano passado, as ações ordinárias, com direito a voto (ON), eram negociadas em torno de R$ 40. Nesta quarta-feira (9), fecharam o pregão cotadas a R$ 13,14. No período, o Ibovespa, principal índice da Bolsa brasileira, subiu cerca de 4%.

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Após comprar a australiana Aesop em 2013, a Natura adquiriu a britânica The Body Shop em 2017 e a americana Avon, em 2019. Com isso, tornou-se a Natura &Co., com a proposta de virar uma plataforma global de marcas de beleza, no estilo L’Oréal.

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Mas a companhia ficou grande e complexa demais para lidar com rapidez com problemas distintos em diferentes regiões geográficas. Foi obrigada a descentralizar as tomadas de decisão.

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Com a vinda de Barbosa, a empresa anunciou uma reestruturação, a fim de tornar a holding mais leve e eficiente. O grupo também estuda “destravar valor” da sua marca de luxo, a Aesop, que tem um plano de expansão consistente na China: a primeira loja da marca foi inaugurada neste ano em Xangai.

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Para isso, estuda um IPO (oferta pública inicial de ações, na sigla em inglês), um spin-off (a empresa passa a ser independente do grupo) ou um novo sócio para a marca, vindo do mercado de private equity.

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Quanto à desvalorização recorde das ações da companhia, Barbosa afirma que a recuperação dos papéis virá como consequência da implementação das ações da companhia para aumentar as margens e as sinergias entre Avon e Natura, especialmente na América Latina, com destaque para Brasil, Colômbia e Peru em 2023. “É preciso acelerar esta integração e a reorganização do grupo.”

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Segundo Barbosa, o quarto trimestre da empresa vai ser “muito forte”, mas ainda com margens pressionadas, por conta da inflação.

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Para analistas, grupo pode vender operações da Avon International

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Na opinião de Thiago Macruz, analista do Itaú BBA, a Natura se tornou uma empresa pesada, principalmente depois da aquisição da Avon, com várias áreas de suporte a cada marca.

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“Mas, com a chegada de Barbosa, a gente percebe um esforço do grupo em criar maior autonomia para diversas áreas, descentralizando as tomadas de decisão, o que tende a deixar a empresa mais ágil.”

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Para Macruz, a Natura deve se voltar à América Latina, seu principal mercado. Na região, a receita líquida cresceu 10% no terceiro trimestre, na comparação anual.

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Já na Europa, a empresa está mais exposta à inflação e às pressões de custo, como reflexo da guerra na Ucrânia. “Não me surpreenderia se o grupo vendesse algum ativo no exterior para gerar caixa, como operações da Avon International ou da The Body Shop”, afirma o analista.

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No terceiro trimestre, a receita líquida da Avon International (que engloba todas as operações da Avon fora da América Latina) caiu 8,1% em moeda corrente. Na The Body Shop, a queda foi de 19,5%. Já a Aesop registrou alta de 21,5% no período.

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Para Danniela Eiger, analista da XP, também faria mais sentido se o grupo deixasse mercados deficitários da Avon International. “De qualquer forma, a empresa precisa acelerar a integração entre Natura e Avon na América Latina, para gerar mais sinergias”, afirma.

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A analista da XP também chama a atenção para os resultados ruins da The Body Shop. “Houve um desbalanceamento da operação no pós-pandemia, com fechamento de canais de venda”, afirma. “A performance da marca é muito aquém do esperado.”

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Danniela afirma que, em 2023, a empresa, como todos os grandes grupos de consumo, vai ter que lidar com o aumento da pressão inflacionária, de um lado, e um certo alívio com o controle da pandemia, de outro. “Aqui mais atividades voltaram ao presencial do que na Europa, apesar da nova onda ômicron”, diz.

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Para Ana Paula Tozzi, sócia da AGR Consultores, houve um erro estratégico na compra da Avon, com a manutenção das decisões centralizadas na holding. “O back office [funções administrativas] ficou muito pesado”, afirma.

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“Os negócios ficaram com pouca autonomia e velocidade de transformação”, diz ela, que acredita que o desempenho das ações na Bolsa deve melhorar.

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Ana Paula também espera que a companhia centre esforços na América Latina no ano que vem. “Haverá recessão na Europa em 2023, e 2024 continuará muito ruim”, diz. “Com exceção do mercado de luxo, segmento da Aesop, que vai muito bem.”

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Raio-X da Natura&Co.
(Dados de 2021)
Fundação: 1969
Funcionários: 35 mil
Receita líquida: R$ 40,1 bilhões
Lucro líquido: R$ 1 bilhão
Presença: Mais de 40 mercados nas Américas, Europa, Ásia e Oceania
Principais concorrentes: O Boticário, L’Oréal, Nivea