{"id":83413,"date":"2019-02-15T02:34:49","date_gmt":"2019-02-15T04:34:49","guid":{"rendered":"https:\/\/g1.globo.com\/ciencia-e-saude\/noticia\/2019\/02\/15\/agora-sei-por-que-nao-menstruo-jovem-conta-como-se-descobriu-e-se-aceitou-intersexual.ghtml"},"modified":"2026-04-10T14:48:04","modified_gmt":"2026-04-10T17:48:04","slug":"agora-sei-por-que-nao-menstruo-jovem-conta-como-se-descobriu-e-se-aceitou-intersexual","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/bocudo.com\/?p=83413","title":{"rendered":"&#8216;Agora sei por que n\u00e3o menstruo&#8217;: jovem conta como se descobriu (e se aceitou) intersexual"},"content":{"rendered":"<p><script async src=\"https:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/js\/adsbygoogle.js?client=ca-pub-4475525115208877\" crossorigin=\"anonymous\"><\/script><br \/>\n<ins class=\"adsbygoogle\" style=\"display: block; text-align: center;\" data-ad-layout=\"in-article\" data-ad-format=\"fluid\" data-ad-client=\"ca-pub-4475525115208877\" data-ad-slot=\"5212872264\"><\/ins><br \/>\n<script>\n     (adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({});\n<\/script><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-1169054\" src=\"https:\/\/bocudo.com\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/105629614-sum2s.webp\" alt=\"\" width=\"984\" height=\"714\" srcset=\"https:\/\/bocudo.com\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/105629614-sum2s.webp 984w, https:\/\/bocudo.com\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/105629614-sum2s-600x435.webp 600w, https:\/\/bocudo.com\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/105629614-sum2s-768x557.webp 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 984px) 100vw, 984px\" \/><\/p>\n<div style=\"text-align: center;\"><\/div>\n<p>Suz Temko venceu um c\u00e2ncer na adolesc\u00eancia, mas n\u00e3o sabia que isso seria mais f\u00e1cil do que entender e aceitar sua intersexualidade. Ap\u00f3s descobrir sua intersexualidade, Suz Temko achou que precisava ser mais feminina e se encaixar em certos padr\u00f5es de beleza<br \/>\nSuz Temko<br \/>\nSuz Temko descobriu que era intersexual no dia da sua festa de formatura na escola e passou os 10 anos seguintes lutando com sua pr\u00f3pria autoestima e identidade.<br \/>\nIntersexual \u00e9 o termo usado para descrever pessoas que nascem com caracter\u00edsticas sexuais biol\u00f3gicas que n\u00e3o se encaixam nas categorias t\u00edpicas do sexo feminino ou masculino.<br \/>\nSuz Temko decidiu contar sua hist\u00f3ria para dar visibilidade a pessoas como ela &#8211; que ela diz n\u00e3o serem raras, mas simplesmente invis\u00edveis:<br \/>\nQuando eu tinha 15 anos, fui a uma festa. E levei um tombo um pouco constrangedor. Foi quando descobri que eu tinha uma protuber\u00e2ncia estranha no abd\u00f4men que n\u00e3o tinha visto antes.<br \/>\nEsse incha\u00e7o acabou se revelando um tumor maligno. Estava com c\u00e2ncer em est\u00e1gio 4 que, de acordo com o primeiro diagn\u00f3stico, era de ov\u00e1rios. Receber esse tipo de not\u00edcia aos 15 anos \u00e9 muito marcante.<br \/>\nQuando recebi alta do hospital, perguntaram se eu queria saber por que tive c\u00e2ncer.<br \/>\nEntrei naquela reuni\u00e3o animada para entender o que havia acontecido comigo, mas o m\u00e9dico era t\u00e3o t\u00e9cnico que n\u00e3o entendi uma \u00fanica frase do que ele estava dizendo. Exceto uma que ficou na minha mem\u00f3ria:<br \/>\n&#8220;Voc\u00ea tem cromossomos XY, tipicamente masculinos. Em outras palavras, voc\u00ea \u00e9 fisicamente mulher, mas geneticamente um homem.&#8221;<br \/>\nPortanto, o c\u00e2ncer que eu tive n\u00e3o era realmente um c\u00e2ncer de ov\u00e1rio, porque eu simplesmente n\u00e3o tinha ov\u00e1rios. Os m\u00e9dicos sabiam disso, mas estavam esperando o momento certo para me contar.<br \/>\nEu sou intersexual, isto \u00e9, uma pessoa que nasceu com uma varia\u00e7\u00e3o nas caracter\u00edsticas sexuais que identificam cada sexo. As diferen\u00e7as podem ser encontradas nos genitais, cromossomos, g\u00f4nadas ou horm\u00f4nios, que n\u00e3o coincidem com o entendimento bin\u00e1rio padr\u00e3o dos corpos &#8211; nem masculino, tampouco feminino.<br \/>\n\u00c9 muito raro que essas altera\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas causem o desenvolvimento de c\u00e2ncer. Acontece com apenas 1% das pessoas intersexuais, segundo as estat\u00edsticas.<br \/>\nMas aconteceu comigo.<br \/>\nEu tinha acabado de colocar os p\u00e9s para fora do hospital quando tudo come\u00e7ou a fazer sentido. Por fim, descobri por que nunca havia menstruado.<br \/>\nComecei a entrar em p\u00e2nico. Senti um vazio enorme no peito.<br \/>\nEra o dia do meu baile de formatura, mas decidi n\u00e3o ir porque n\u00e3o estava no clima.<br \/>\nGuardar segredo<br \/>\nNa minha busca por respostas, encontrei v\u00e1rias cartilhas e artigos sobre c\u00e2ncer, mas nada sobre o que fazer se voc\u00ea for intersexual. Sentia que eu estava em um buraco negro.<br \/>\nA recomenda\u00e7\u00e3o geral dos m\u00e9dicos e da minha fam\u00edlia era &#8220;manter em segredo, n\u00e3o contar \u00e0s pessoas&#8221;.<br \/>\nNos dois anos seguintes eu fui muito feliz. Estava emocionada por estar viva. Me tornei porta-voz do Teenage Cancer Trust (associa\u00e7\u00e3o brit\u00e2nica dedicada a adolescentes com c\u00e2ncer) e isso me ajudou muito a saber como lidar positivamente com a doen\u00e7a.<br \/>\nMas havia algo que eu estava deixando de lado: minha intersexualidade.<br \/>\nTudo mudou quando eu tinha 18 anos e peguei mal\u00e1ria em uma viagem \u00e0 Tanz\u00e2nia. Por causa da cobertura do meu seguro, tive que falar com um m\u00e9dico no Reino Unido.<br \/>\nAntes desse epis\u00f3dio, achava que todos os m\u00e9dicos eram maravilhosos, infal\u00edveis. Pensava que eram pessoas que diziam a verdade e faziam as pessoas se sentirem bem.<br \/>\nEsse conceito idealizado fez com que eu me sentisse muito mal depois do que viria a acontecer.<br \/>\nO m\u00e9dico me pediu um hist\u00f3rico m\u00e9dico completo e quando expliquei que meus cromossomos eram do tipo XY, ele me disse: &#8220;Voc\u00ea me passou o hist\u00f3rico m\u00e9dico errado, se voc\u00ea tem cromossomos XY, voc\u00ea \u00e9 homem&#8221;.<br \/>\nEu tentei explicar, mas ele n\u00e3o quis ouvir:<br \/>\n&#8220;N\u00e3o sei o que te disseram, mas voc\u00ea \u00e9 um menino&#8221;, afirmou.<br \/>\nEu estava muito doente, em uma posi\u00e7\u00e3o vulner\u00e1vel e apesar de estar chorando, ele continuou:<br \/>\n&#8220;Como voc\u00ea se parece? Como s\u00e3o seus peitos?&#8221;<br \/>\nFoi um pesadelo. Parecia que ele n\u00e3o ia me deixar terminar a liga\u00e7\u00e3o at\u00e9 admitir que era homem.<br \/>\nA partir de 18 anos, Suz Temko come\u00e7ou a ter problemas de autoestima e identidade, assim como pensamentos suicidas<\/p>\n<p>Pensamentos suicidas<br \/>\nFoi a partir dessa conversa que comecei a esmorecer.<br \/>\nA voz dele era como um alto-falante para alguns dos meus pensamentos mais sombrios: que eu era uma pessoa estranha, um fen\u00f4meno desagrad\u00e1vel.<br \/>\nComo ele era um m\u00e9dico, suas palavras ganharam muito mais relev\u00e2ncia.<br \/>\nE cada vez mais m\u00e9dicos me fizeram sentir que eu n\u00e3o era uma pessoa normal.<br \/>\n&#8220;Toma esses horm\u00f4nios, eles v\u00e3o fazer voc\u00ea parecer uma menina&#8230; Voc\u00ea tem tr\u00eas dos cinco crit\u00e9rios para ser considerada mulher. Ainda bem que voc\u00ea \u00e9 bonita.&#8221;<br \/>\nSe ia ao m\u00e9dico por causa de um resfriado, eles inventavam qualquer desculpa para poder examinar &#8220;l\u00e1 embaixo&#8221;.<br \/>\nEntrei em depress\u00e3o severa. Cheguei a ter pensamentos suicidas.<br \/>\nComecei a sentir que n\u00e3o estava bem do jeito que eu era. Achei que precisava ficar super magra e tentei at\u00e9 fazer uma voz mais fina.<br \/>\nFiz quest\u00e3o de ter cabelo loiro e comprido e segui uma dieta r\u00edgida para emagrecer.<br \/>\nAchava que deveria ser uma modelo da Victoria&#8217;s Secret com doutorado.<br \/>\nNaquela \u00e9poca, eu tinha um namorado encantador, mas n\u00e3o me atrevi a contar a verdade a ele com medo que terminasse comigo.<br \/>\nAceita\u00e7\u00e3o<br \/>\nA situa\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a mudar no meu terceiro ano na faculdade, quando meu namorado foi para o exterior e passei a dividir apartamento com amigas queridas.<br \/>\nElas eram pessoas incr\u00edveis. Contei a elas que eu era intersexual e elas deixaram bem claro que eu n\u00e3o tinha nada do que me envergonhar. Pelo contr\u00e1rio, foi motivo de comemora\u00e7\u00e3o.<br \/>\nMeu namoro acabou no fim daquele ano por causa da dist\u00e2ncia. Mas n\u00e3o foi o fim do mundo. Comecei a fazer mestrado e a trabalhar com pol\u00edtica. Tamb\u00e9m estreei um blog sobre c\u00e2ncer, mortalidade e aceita\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio corpo.<br \/>\nE um dia pensei: &#8220;Isso est\u00e1 errado. Sou hip\u00f3crita. N\u00e3o estou sendo honesta. Estou dizendo \u00e0s pessoas para aceitar o corpo delas quando n\u00e3o aceito o meu pr\u00f3prio&#8221;.<br \/>\nEnt\u00e3o, escrevi um post no Facebook em que, basicamente, contei a todo mundo sobre minha intersexualidade.<br \/>\nO que veio a seguir foi incr\u00edvel. As pessoas responderam imediatamente dizendo coisas como: &#8220;N\u00f3s amamos voc\u00ea&#8221;.<br \/>\nContei ao meu ex-namorado e s\u00f3 recebi amor e compreens\u00e3o da parte dele. Agora ele virou um amigo muito pr\u00f3ximo.<br \/>\nAs redes sociais me ajudaram a encontrar uma comunidade de pessoas que passaram pelas mesmas dificuldades. E poder encontrar com elas pessoalmente foi um al\u00edvio enorme.<br \/>\nAprenda com as batalhas dos outros<br \/>\nE embora seja bom ouvir hist\u00f3rias positivas, voc\u00ea tamb\u00e9m aprende muito com as batalhas que cada um teve que travar &#8211; foi importante saber que n\u00e3o estava sozinha.<br \/>\nCheguei a me sentir muito culpada por ter cogitado suic\u00eddio algum dia. Como poderia ousar pensar em algo assim se tinha sobrevivido a um c\u00e2ncer?<br \/>\nMas ouvir que outras pessoas passaram pela mesma situa\u00e7\u00e3o me ajudou. E n\u00e3o foi s\u00f3 isso. Tamb\u00e9m fortaleceu minha determina\u00e7\u00e3o em lutar por direitos e para dar mais visibilidade a pessoas intersexuais.<br \/>\nSer intersexual n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil. O dif\u00edcil \u00e9 ver como a sociedade te trata.<br \/>\nTodas as batalhas psicol\u00f3gicas que travei foram realmente por causa de como a sociedade reage a pessoas como eu.<br \/>\nA identidade de uma pessoa n\u00e3o \u00e9 algo simples. N\u00e3o sou apenas intersexual. Tampouco s\u00f3 uma sobrevivente de c\u00e2ncer.<br \/>\nNenhum de n\u00f3s \u00e9 uma coisa s\u00f3.<br \/>\nHouve um tempo em que eu implorava para &#8220;ser normal&#8221;. Agora eu n\u00e3o mudaria nada no meu corpo, ele me deu muito mais do que tirou.<br \/>\nHoje em dia n\u00e3o escondo dos meus amigos, no trabalho e em meus relacionamentos \u00edntimos.<br \/>\nE compartilho minha hist\u00f3ria porque quero acabar com o estigma (em rela\u00e7\u00e3o a pessoas intersexuais) e trabalhar por um futuro em que conhe\u00e7amos, celebremos e protejamos pessoas intersexuais como eu.<br \/>\nSer intersexual n\u00e3o \u00e9 raro. Entre 1,7% e 2% das pessoas no mundo s\u00e3o intersexuais. \u00c9 uma quest\u00e3o estat\u00edstica.<br \/>\nN\u00e3o somos unic\u00f3rnios, somos simplesmente invis\u00edveis.<\/p>\n<p><ins class=\"adsbygoogle\" style=\"display: block;\" data-ad-format=\"autorelaxed\" data-ad-client=\"ca-pub-4475525115208877\" data-ad-slot=\"8304162780\"><\/ins><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-1380021\" src=\"https:\/\/bocudo.com\/wp-content\/uploads\/2003\/04\/MINI-noticias-removebg.png\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"200\" \/><br \/>\n<script async src=\"https:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/js\/adsbygoogle.js?client=ca-pub-4475525115208877\" crossorigin=\"anonymous\"><\/script><br \/>\n<ins class=\"adsbygoogle\" style=\"display: block; text-align: center;\" data-ad-layout=\"in-article\" data-ad-format=\"fluid\" data-ad-client=\"ca-pub-4475525115208877\" data-ad-slot=\"5212872264\"><\/ins><br \/>\n<script>\n     (adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({});\n<\/script><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Suz Temko venceu um c\u00e2ncer na adolesc\u00eancia, mas n\u00e3o sabia que isso seria mais f\u00e1cil&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":1169054,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8408,8402,8198],"tags":[1028,85,1389,1390,1391,1392,1393,1394],"class_list":["post-83413","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-genetica","category-saude","category-vida-e-sociedade","tag-cancer","tag-cromossomos","tag-intersexual","tag-ovario","tag-suz-temko","tag-tanzania","tag-teenager-cancer-trust","tag-tumor-maligno"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/bocudo.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/83413","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/bocudo.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/bocudo.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/bocudo.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/bocudo.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=83413"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/bocudo.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/83413\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1384494,"href":"https:\/\/bocudo.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/83413\/revisions\/1384494"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/bocudo.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/1169054"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/bocudo.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=83413"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/bocudo.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=83413"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/bocudo.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=83413"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}