{"id":1493073,"date":"2022-07-05T09:57:11","date_gmt":"2022-07-05T12:57:11","guid":{"rendered":"https:\/\/placar.abril.com.br\/?p=143753"},"modified":"2022-07-05T09:57:11","modified_gmt":"2022-07-05T12:57:11","slug":"menino-da-capa-relembra-a-tragedia-do-sarria-40-anos-depois","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/bocudo.com\/?p=1493073","title":{"rendered":"&#8216;Menino da capa&#8217; relembra a Trag\u00e9dia do Sarri\u00e1, 40 anos depois"},"content":{"rendered":"<figure><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/placar.abril.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/1982.menino.jpg\" \/><figcaption>Antes e depois: a capa hist\u00f3rica e o advogado Jos\u00e9 Carlos Vilela J\u00fanior, hoje com 50 anos<span class=\"copyright\">PLACAR\/Reprodu\u00e7\u00e3o<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>n<\/p>\n<p><strong>Texto publicado na <a href=\"https:\/\/placar.abril.com.br\/placar\/placar-de-junho-em-edicao-especial-os-40-anos-da-tragedia-do-sarria\/\">edi\u00e7\u00e3o impressa de junho de 2022 de PLACAR<\/a><\/strong><\/p>\n<p>n<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 como ver a foto do menino de 10 anos rec\u00e9m-completados, em prantos, sem lembrar do conhecido aforismo do poeta ingl\u00eas William<br \/>nWordsworth, que depois Machado de Assis citaria em Mem\u00f3rias P\u00f3stumas de Br\u00e1s Cubas: \u201cO menino \u00e9 o pai do homem\u201d. Eu, um homem de 50 anos, advogado, olho para o garoto com a camisa da sele\u00e7\u00e3o e sinto uma dupla sensa\u00e7\u00e3o: de nostalgia tr\u00e1gica e de orgulho. A nostalgia, associada \u00e0 derrota, me remete ao futebol nos anos 1980, de alguma ingenuidade e amor ao esporte sem as amarras comerciais e imposi\u00e7\u00f5es financeiras de hoje.<\/p>\n<p>n<\/p>\n<p>O orgulho brota de uma percep\u00e7\u00e3o individual, mas que imagino ser poss\u00edvel transferir para a sociedade: a relev\u00e2ncia e beleza daquele momento. \u00c9 sin\u00f4nimo de fracasso, sim, mas tamb\u00e9m de como devemos enfrent\u00e1- lo, de cora\u00e7\u00e3o aberto e sinceridade. \u00c9 o retrato de um pa\u00eds que, em 1982, debru\u00e7ado sobre o futebol, sonhava em dar adeus \u00e0 ditadura militar, e terminou em l\u00e1grimas, depois daqueles tr\u00eas gols de Paolo Rossi.<\/p>\n<p>n<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/placar.abril.com.br\/ofertas\/?origem=sr_pl_cta_redacao&amp;utm_source=sites&amp;utm_medium=sr&amp;utm_campaign=sr_pl_cta_redacao\"><strong>Assine #PLACAR digital no app por apenas R$ 6,90\/m\u00eas. N\u00e3o perca!<\/strong><\/a><\/p>\n<p>n<\/p>\n<p>S\u00f3 um adulto poderia, quarenta anos depois, refletir com maturidade em torno daquele epis\u00f3dio \u2014 mas, pensando bem, n\u00e3o seria exagero dizer que o Jos\u00e9 Carlos menino intu\u00eda, de algum modo, o que acontecia no Sarri\u00e1. Pode soar inveross\u00edmil, mas n\u00e3o \u00e9: passadas quatro d\u00e9cadas, tenho lembran\u00e7as perfeitas daquela tarde em Barcelona. \u00c9 como se fosse aqui e agora.<\/p>\n<p>n<\/p>\n<p>Lembro-me do ambiente no local, do est\u00e1dio, do momento, do meu sentimento, de tudo. Eu era um pr\u00e9-adolescente sentimental, sens\u00edvel. Muito protegido por minha m\u00e3e, V\u00e2nia, desde pequeno, mimado mesmo. Filho \u00fanico \u2014 minha irm\u00e3 mais nova, Amanda, crescia na barriga da mam\u00e3e, l\u00e1 junto com a gente. Eu estava de luto, emocionado, inconsol\u00e1vel, n\u00e3o apenas pela elimina\u00e7\u00e3o contra a It\u00e1lia, mas por saber que nunca mais poderia ver aquele espet\u00e1culo novamente, aquela sele\u00e7\u00e3o, aqueles jogadores.<\/p>\n<p>n<\/p>\n<p>Era o fim, e todo fim \u00e9 triste. Despedia-me de um tempo de vida \u2014 talvez seja isso, em resumo, o que a foto revela. Apare\u00e7o sem f\u00f4lego, de tanto chorar. Chorava antes mesmo de o jogo acabar, encostado no alambrado logo abaixo da tribuna de honra onde est\u00e1vamos. Tenho o peito estufado porque buscava um pouco de ar, que n\u00e3o vinha de jeito nenhum.<\/p>\n<p>n<\/p>\n<div id=\"relacionadas\" class=\"block  three_columns\">\n<ul class=\"block-menu\">\n<li data-tab=tab-1 class=\"active\">Relacionadas<\/li>\n<\/ul>\n<div id=\"tab-1\" class=\"block-content active\">\n<ul class=\"relacionadas-s-img\">\n<li class=\"widget-news-item without-thumb with-border\">\n<div class=\"widget-news-info\"><a href=\"\/copa-do-mundo\">Copa do Mundo<\/a><span class=\"widget-news-item-title\"><a href=\"https:\/\/placar.abril.com.br\/copa-do-mundo\/especial-1982-o-diario-de-socrates-na-copa-da-espanha\/\">O di\u00e1rio de S\u00f3crates na Copa da Espanha<\/a><\/span><span class=\"widget-news-item-date\">13 jun 2022 &#8211; 14h06<\/span><\/div>\n<\/li>\n<li class=\"widget-news-item without-thumb with-border\">\n<div class=\"widget-news-info\"><a href=\"\/copa-do-mundo\">Copa do Mundo<\/a><span class=\"widget-news-item-title\"><a href=\"https:\/\/placar.abril.com.br\/copa-do-mundo\/bota-ponta-na-selecao-tele\/\">Bota ponta na sele\u00e7\u00e3o, Tel\u00ea<\/a><\/span><span class=\"widget-news-item-date\">13 jun 2022 &#8211; 15h06<\/span><\/div>\n<\/li>\n<li class=\"widget-news-item without-thumb with-border\">\n<div class=\"widget-news-info\"><a href=\"\/copa-do-mundo\">Copa do Mundo<\/a><span class=\"widget-news-item-title\"><a href=\"https:\/\/placar.abril.com.br\/copa-do-mundo\/verissimo-relatorio-de-um-turista-as-vesperas-da-copa-de-1982\/\">Verissimo: relat\u00f3rio de um turista \u00e0s v\u00e9speras da Copa de 1982<\/a><\/span><span class=\"widget-news-item-date\">13 jun 2022 &#8211; 23h06<\/span><\/div>\n<\/li>\n<\/ul>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>n<\/p>\n<p>Demoramos bastante at\u00e9 sair das cadeiras onde nos sent\u00e1vamos. As l\u00e1grimas continuaram ainda nas instala\u00e7\u00f5es internas do camarote. Era consolado pela minha m\u00e3e e por outras pessoas sens\u00edveis ante aquela vis\u00e3o de tristeza profunda. Bonitas recepcionistas espanholas, lembro bem, tentaram me ajudar. Mas n\u00e3o adiantava. O sofrimento n\u00e3o passava.\u00a0 A ponto de meu pai, s\u00e9rio e vaidoso, um homem de seu tempo, ter brigado comigo por n\u00e3o parar de chorar.<\/p>\n<p>n<\/p>\n<div class=\"ads post-ads\"><span class=\"title\">Continua ap\u00f3s a publicidade<\/span><\/p>\n<p>n<\/p>\n<div id=\"abrAD_rectangle2\" class=\"abrAD\" data-ad-sizes=\"300x250\"><\/div>\n<p>n<\/p><\/div>\n<p>n<\/p>\n<p>Acompanhei a Copa desde o in\u00edcio, junto com um grupo de amigos do meu pai, Jos\u00e9 Carlos Vilella, advogado do Fluminense, pejorativamente conhecido como \u201co rei do tapet\u00e3o\u201d, porque nunca perdera uma causa. Nos puseram em um setor nobre, ao lado de autoridades. Logo abaixo ficava o setor de imprensa, com rep\u00f3rteres e fot\u00f3grafos. Antes mesmo do in\u00edcio da partida j\u00e1 havia percebido as c\u00e2meras de fotografia apontadas para nossa dire\u00e7\u00e3o \u2014 e sobretudo para minha m\u00e3e, ex-miss, uma mulher muito bonita.<\/p>\n<p>n<\/p>\n<p>N\u00e3o havia sensa\u00e7\u00e3o melhor: era uma Copa do Mundo, instante \u00fanico, de genu\u00edna euforia para um garoto que tinha completado 10 anos logo depois da vit\u00f3ria sobre a Esc\u00f3cia. Estava no Olimpo. E ent\u00e3o veio o pesadelo. Do\u00eddo, mas que hoje identifico como marco de transi\u00e7\u00e3o pessoal, da meninice para a adolesc\u00eancia, e do Brasil, da repress\u00e3o para a democracia. Aquela foto \u2014 que s\u00f3 vim a saber que fora capa do <em>Jornal da Tarde<\/em>, no lindo registro de Reginaldo Manente, quatro anos mais tarde, porque morava no Rio de Janeiro \u2014 \u00e9 o retrato mais relevante de toda a minha vida. E o que poderia ser o s\u00edmbolo de um hist\u00f3ria com final infeliz ganhou outra conota\u00e7\u00e3o: a esperan\u00e7a de dias melhores.<\/p>\n<p>n<\/p>\n<p>\u00c9ramos felizes e n\u00e3o sab\u00edamos. Felizes pela qualidade daquele escrete. Felizes porque o Brasil, apesar de tudo, apesar da permanente desigualdade, caminhava para virar a p\u00e1gina da ditadura. \u00c9 hist\u00f3ria que me comove, que relembro sempre para meus filhos, e autoriza uma certeza: o menino \u00e9 mesmo o pai do homem.\u201d<\/p>\n<p>n<\/p>\n<p><strong>O INSTANTE CERTO<\/strong><\/p>\n<p>n<\/p>\n<figure><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/placar.abril.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/instantecerto.jpg\" \/><figcaption>O contato com a s\u00e9rie de cliques: retoque na maquiagem da m\u00e3e abalada com as l\u00e1grimas do filho<span class=\"copyright\">REGINALDO MANENTE\/Arquivo pessoal<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>n<\/p>\n<p>A primeira c\u00e2mera digital chegou \u00e0s lojas em 1988 \u2014 durante a Copa do Mundo de 1982, portanto os rep\u00f3rteres fotogr\u00e1ficos trabalhavam com aparelhos anal\u00f3gicos, ainda um tanto pesados, grandalh\u00f5es, e com rolos de negativos. O processo de transmiss\u00e3o de imagens da Espanha para as reda\u00e7\u00f5es de jornais e revistas era uma aventura rom\u00e2ntica. Inicialmente, revelavam-se os filmes e, a partir dos negativos, tratava-se de imprimir o que se chamava de contato \u2014 os registros pequenos, do tamanho de um retrato 3 por 4, em sequ\u00eancia, um colado ao outro, a partir do qual se escolhiam os melhores cliques.<\/p>\n<p>n<\/p>\n<p>A foto eleita era ent\u00e3o ampliada e levada a uma traquitana chamada telefoto. O aparelho \u2014 de zunido eletr\u00f4nico caracter\u00edstico, alto e irritante \u2014 enviava as imagens por meio de linha telef\u00f4nica. Era batata: se por tr\u00e1s de portas de quartos de hotel houvesse o inc\u00f4modo barulho madrugada adentro, era certo que havia ali um profissional enviando seu trabalho para a sede. O fot\u00f3grafo Reginaldo Manente, que trabalhava para o <em>Estad\u00e3o<\/em> e o <em>Jornal da Tarde<\/em>, de S\u00e3o Paulo, estava abaixo da tribuna de honra do Sarri\u00e1 naquele 5 de julho.<\/p>\n<p>n<\/p>\n<p>Quando o israelense Abraham Klein encerrou a partida, Manente apontou sua Nikon de lente curta para a carioca V\u00e2nia Pinto Padilha Vilella Rabello, que chorava copiosamente, borrando a maquiagem. Ela relembra: \u201cEstava triste com meu filho, o J\u00fanior, agoniado, tentando segurar o choro. Mas a\u00ed ele tamb\u00e9m caiu em prantos. Eu disse: \u2018Calma, tem outro jogo ainda\u201d, atrapalhada com a tabela, nervosa. \u2018Tem nada, acabou\u2019, ele me disse\u201d.<br \/>nManente fez dez ou quinze chapas.<\/p>\n<p>n<\/p>\n<p>\u201cTive sorte, o lugar estava \u00e0 sombra, com pouca luz\u201d, diz. \u201cFosse naquele sol forte, n\u00e3o teria o efeito que teve, perfeito equil\u00edbrio de tonalidades.\u201d Ao chegar ao hotel, o chefe da cobertura, Roberto Avallone, quis logo saber dele: \u201cFez torcida?\u201d. No quarto, ao lado do companheiro de trabalho, Alfredo Rizzutti, Manente revelou o filme. Fez o contato e circulou com um marcador a chapa que lhe parecia mais interessante. \u201cAcho que tenho uma boa foto\u201d, disse ao amigo. \u201cFotos boas sempre temos\u201d, ouviu como resposta. Manente voltou a insistir, pediu aten\u00e7\u00e3o, ao que Rizzutti aquiesceu. \u201cCaramba, \u00e9 boa mesmo.\u201d Foi dar na capa do JT, com a data da trag\u00e9dia \u00e0 guisa de legenda.<\/p>\n<p>n<\/p>\n<p>O rep\u00f3rter Vital Bataglia, que tamb\u00e9m estava em Barcelona, ao ver a fotografia mais tarde, come\u00e7ou a chorar como o menino, uma, duas, tr\u00eas vezes. Manente enviou aquele \u00fanico clique para ser publicado \u2014 e guardou um tesouro, a s\u00e9rie que mostra os segundos exatamente anteriores e posteriores ao instante certo. \u00c9 poss\u00edvel que a imagem da m\u00e3e do menino retocando a maquiagem tamb\u00e9m gerasse como\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>n<\/p>\n<figure><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/placar.abril.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Capa.jpg\" \/><figcaption>Edi\u00e7\u00e3o de junho de 2022 de PLACAR: uma homenagem \u00e0 sele\u00e7\u00e3o de 1982<span class=\"copyright\">PLACAR\/Reprodu\u00e7\u00e3o<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>n<\/p>\n<div class=\"ads post-ads\"><span class=\"title\">Continua ap\u00f3s a publicidade<\/span><\/p>\n<p>n<\/p>\n<div id=\"abrAD_rectangle3\" class=\"abrAD\" data-ad-sizes=\"300x250\"><\/div>\n<p>n<\/p><\/div>\n<p>n<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Antes e depois: a capa hist\u00f3rica e o advogado Jos\u00e9 Carlos Vilela J\u00fanior, hoje com&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-1493073","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/bocudo.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1493073","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/bocudo.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/bocudo.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/bocudo.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/bocudo.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1493073"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/bocudo.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1493073\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/bocudo.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1493073"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/bocudo.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1493073"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/bocudo.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1493073"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}