{"id":1439076,"date":"2026-06-04T07:00:37","date_gmt":"2026-06-04T07:00:37","guid":{"rendered":"https:\/\/bocudo.com\/?p=1439076"},"modified":"2026-06-30T10:31:34","modified_gmt":"2026-06-30T13:31:34","slug":"guinlagem-do-camaco-a-lingua-secreta-dos-mineiros-da-cidade-de-carlos-drummond","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/bocudo.com\/?p=1439076","title":{"rendered":"&#8216;Guinlagem do Camaco&#8217;, a l\u00edngua secreta dos mineiros da cidade de Carlos Drummond"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: center; margin: 20px 0;\"><script async src=\"https:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/js\/adsbygoogle.js?client=ca-pub-4475525115208877\" crossorigin=\"anonymous\"><\/script><br \/>\n<ins class=\"adsbygoogle\" style=\"display: block; text-align: center;\" data-ad-layout=\"in-article\" data-ad-format=\"fluid\" data-ad-client=\"ca-pub-4475525115208877\" data-ad-slot=\"7970302005\"><\/ins><br \/>\n<script>\n     (adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({});\n<\/script><\/div>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/s2-g1.glbimg.com\/O4ZbK0F06M2N52WL3gQYskkJZCA=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2024\/A\/k\/fzCw6qQmCB3irRpA88sg\/332553.jpg\" width=\"723\" height=\"439\" \/><br \/>\nA &#8220;l\u00edngua&#8221; secreta dos mineiros<\/p>\n<p>Uma cidade, um poeta. O nome de Itabira \u00e9 quase indissoci\u00e1vel de Carlos Drummond de Andrade. O escritor, nascido em 1902, na cidade de 113 mil habitantes na Regi\u00e3o Central de Minas Gerais, revolucionou a l\u00edngua portuguesa ao virar de cabe\u00e7a para baixo os formalismos da poesia vigente at\u00e9 ent\u00e3o. Mas o que pouca gente sabe \u00e9 que naquele mesmo local surgiu uma outra revolu\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica: a Guinlagem do Camaco.<br \/>\nO surgimento dessa linguagem &#8220;secreta&#8221; est\u00e1 diretamente ligado ao contexto da explora\u00e7\u00e3o do min\u00e9rio na regi\u00e3o. Foi dentro das minas itabiranas, no come\u00e7o do s\u00e9culo 20, que os trabalhadores encontraram uma forma de se comunicar sem serem entendidos pelos patr\u00f5es, em grande parte ingleses. Era tamb\u00e9m uma maneira de dar um troco nos donos das minas, que falavam no idioma materno quando n\u00e3o queriam ser compreendidos pelos empregados.<br \/>\n\u00c0 primeira vista, as regras s\u00e3o simples. O princ\u00edpio do Camaco \u00e9 inverter os fonemas das s\u00edlabas das palavras, embaralhando os sons e tornando as frases praticamente incompreens\u00edveis para quem est\u00e1 de fora. &#8220;Sov\u00ea lafa guinlagem&#8221;, por exemplo, \u00e9 &#8220;Voc\u00ea fala linguagem?&#8221;. &#8220;Guinlagem do Camaco&#8221; \u00e9 &#8220;Linguagem do Macaco&#8221;. Assim, famosa introdu\u00e7\u00e3o do poema E agora, Jos\u00e9, de Drummond, viraria &#8220;E aroga, Suj\u00e9?&#8221;.<br \/>\nMas nem tudo \u00e9 l\u00f3gica. Algumas palavras mais curtas se transformam em voc\u00e1bulos que fogem a essa regra. &#8220;N\u00e3o&#8221; vira &#8220;\u00f4nis&#8221;. &#8220;Qualquer&#8221;, &#8220;ualquiquelque&#8221;.<br \/>\nEssa \u00e9 a magia da linguagem para o m\u00fasico Rafael Formiga, um falante do Camaco.<br \/>\n&#8220;As palavras criam um sentido dentro de um fonema pela invers\u00e3o. E nos lugares onde voc\u00ea vai falar, mesmo com alguma diferen\u00e7a, todo mundo se entende. Tem uns detalhes muito ricos de linguagem e ao mesmo tempo quem v\u00ea de fora n\u00e3o entende e fica meio perdido, porque \u00e9 normal que a gente procure regra&#8221;, diz ele.<br \/>\n&#8220;Isso demonstra uma capacidade de constru\u00e7\u00e3o e de resist\u00eancia incr\u00edvel&#8221;, explica o historiador e muse\u00f3logo Paulo Assuero, tamb\u00e9m falante do Camaco. &#8220;Eram rec\u00e9m-libertos, em grande parte analfabetos. E tinham que dar solu\u00e7\u00f5es de como dizer as coisas que eles queriam sem que os ingleses entendessem. Virou uma provoca\u00e7\u00e3o, expandiu&#8221;, complementa o professor, tamb\u00e9m residente em Itabira.<br \/>\nDas minas de ferro, o Camaco tomou as ruas. Virou a l\u00edngua que os filhos falavam para conversar entre si, sem que os pais entendessem \u2013 ou a que os jovens usavam para fazer piada com forasteiros.<br \/>\n&#8220;Nos anos 1960, 1970, quando chegava o pessoal de fora, essa coisa de interior, a gente ficava fazendo goza\u00e7\u00e3o com eles. N\u00e3o entendiam nada&#8221;, brinca Assuero, que tamb\u00e9m j\u00e1 surpreendeu alguns alunos dentro de sala com a flu\u00eancia na l\u00edngua.<br \/>\n&#8220;Dois deles estavam colando na prova em Guinlagem de Camaco e achando que eu n\u00e3o sabia de nada. Depois que acabou a prova, chamei eles e falei em Camaco. Tomaram o maior susto&#8221;, diverte-se o professor.<\/p>\n<p>A linguagem da resist\u00eancia<br \/>\nNa casa de Mauro de Alvarenga, o Camaco j\u00e1 \u00e9 uma tradi\u00e7\u00e3o. &#8220;Meus pais falavam quando n\u00e3o queriam ser entendidos por mim e pelos meus irm\u00e3os \u2013 at\u00e9 que n\u00f3s aprendemos. Mas eles tinham aprendido com meu av\u00f4, que era ferreiro e fazia pe\u00e7as para as locomotivas de minera\u00e7\u00e3o. Ele trouxe o Camaco para dentro de casa e foi passando de gera\u00e7\u00e3o para gera\u00e7\u00e3o&#8221;, conta.<br \/>\nPara o historiador e muse\u00f3logo Paulo Assuero, o Camaco tamb\u00e9m servia como provoca\u00e7\u00e3o contra os donos das minas<\/p>\n<p>Nas m\u00e3os do cineasta Breno Alvarenga, filho de Mauro, a hist\u00f3ria da linguagem secreta da cidade de Drummond acabou virando tema do document\u00e1rio Camaco (2022), premiado no Festival de Gramado nas categorias &#8220;Melhor Curta J\u00fari da Cr\u00edtica&#8221; e &#8220;Melhor Montagem&#8221;. O filme reconstr\u00f3i o car\u00e1ter de resist\u00eancia da linguagem entre os trabalhadores da minera\u00e7\u00e3o.<br \/>\n&#8220;O Camaco nasce de um contexto muito politizado, de muita resist\u00eancia. Funcionava tamb\u00e9m como forma de organizar greves, pedir aumentos, sem que fossem boicotados desde o come\u00e7o&#8221;, explica Breno.<br \/>\n&#8220;Foi uma subcultura de sujeitos mais subalternizados, marginalizados e que por isso demorou muito a ser valorizado, porque a elite n\u00e3o vinha uma riqueza naquilo. Os pobres se comunicavam, mas os poderosos n\u00e3o entendiam. Isso \u00e9 muito raro, porque geralmente a linguagem aparta as pessoas e s\u00e3o geralmente os mais ricos que conseguem acessar novas linguagens, n\u00e3o os mais pobres. Ela come\u00e7a dessa invers\u00e3o&#8221;, ressalta o diretor de cinema itabirano.<br \/>\nDe acordo com o linguista e pesquisador Geuderson Marchiori, que pesquisou o tema na sua disserta\u00e7\u00e3o de mestrado pela Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), o Camaco pode ser considerado uma linguagem secreta ou at\u00e9 mesmo um jarg\u00e3o t\u00e9cnico.<br \/>\nNo entanto, segundo ele, que rastreou falantes at\u00e9 a d\u00e9cada de 1920, h\u00e1 uma fun\u00e7\u00e3o similar \u00e0 de um quilombo.<br \/>\n&#8220;A linguagem possibilita a converg\u00eancia dessas popula\u00e7\u00f5es minorizadas, que utilizam o Camaco como um territ\u00f3rio de luta e resist\u00eancia. Embora o senso comum aponte o quilombo como um local de negros escravizados em fuga, o quilombo \u00e9 um local de reorganiza\u00e7\u00e3o, de seguran\u00e7a, onde essas popula\u00e7\u00f5es puderam se libertar da explora\u00e7\u00e3o e se reorganizar para resistir&#8221;, complementa.<br \/>\nMarchiori explica tamb\u00e9m que o termo &#8220;macaco&#8221; em &#8220;Guinlagem do Camaco&#8221; pode ter uma conota\u00e7\u00e3o racista, mas que h\u00e1 outras interpreta\u00e7\u00f5es para o nome.<br \/>\n&#8220;Tem quem diga que o Camaco \u00e9 a linguagem relacionada \u00e0 esperteza que os macacos teriam, a esse jogo de cintura, a essa performance de pular de galho em galho sem ser apanhado, sem cair. Existe ainda uma possibilidade de relacionar o nome da linguagem aos pequenos her\u00f3is, que s\u00e3o os pequenos animais muito presentes nas narrativas de origem africana, que s\u00e3o sempre os bichos menores, vistos como mais fracos, que se sobressaem pela esperteza.&#8221;<\/p>\n<p>Drummond falava Camaco?<br \/>\nApesar de terem surgido na mesma cidade e no mesmo per\u00edodo, Camaco e Drummond vinham de duas Itabiras diferentes. A linguagem, das minas e dos oper\u00e1rios. O poeta, filho de fazendeiros, de uma parte da elite, mesmo que n\u00e3o ligado diretamente \u00e0 atividade miner\u00e1ria. Talvez por isso, at\u00e9 hoje n\u00e3o foram encontradas cita\u00e7\u00f5es do Camaco em cr\u00f4nicas ou poemas de Carlos Drummond de Andrade.<br \/>\n&#8220;Naquela Itabira, a linguagem do Camaco era muito desvalorizada. Na maioria das vezes, era falada por pessoas negras. Foi uma subcultura de sujeitos mais subalternizados, marginalizados e que por isso demorou muito a ser valorizado, porque a elite n\u00e3o via uma riqueza naquilo&#8221;, diz Breno de Alvarenga.<br \/>\nDrummond tamb\u00e9m n\u00e3o ficou muito tempo em Itabira. Aos 18 anos, deixou definitivamente a cidade natal, mudando-se primeiro para Belo Horizonte e, depois, para o Rio. Mas, como ele mesmo dizia em entrevistas, aquele lugar estava sempre presente, como &#8220;uma fotografia na parede&#8221;.<br \/>\nE agora, Itabira?<br \/>\nAtualmente, a cidade mineira \u2013 e mineradora \u2013 passa por uma crise existencial. Com mais de 80% da economia dependente da atividade, Itabira agora tem que lidar com o fim da explora\u00e7\u00e3o do min\u00e9rio cada vez mais perto. De acordo com as estimativas mais recentes, as minas da regi\u00e3o ser\u00e3o paralisadas em 2052.<br \/>\n&#8220;Fica essa rela\u00e7\u00e3o. A cidade depende da minera\u00e7\u00e3o, do PIB. Mas tamb\u00e9m de algo al\u00e9m disso, porque tudo acaba. E a\u00ed? E aroga, Suj\u00e9?&#8221;, questiona o m\u00fasico Rafael Formiga, citando o famoso poema de Drummond.<br \/>\nPara a musicista Nana Mendon\u00e7a, que j\u00e1 trabalhou com oficinas voltadas \u00e0 linguagem, a cidade precisa preservar o Camaco. &#8220;Hoje existem poucos falantes e, com o avan\u00e7o tecnol\u00f3gico, as coisas v\u00eam e v\u00e3o embora muito r\u00e1pido&#8221;, diz ela. Em 2023, o munic\u00edpio de Itabira registrou, em um decreto, a linguagem do Camaco como patrim\u00f4nio cultural imaterial. No entanto, at\u00e9 agora, ainda n\u00e3o foram tomadas medidas concretas para a preserva\u00e7\u00e3o.<br \/>\nMas \u00e9 justamente na capacidade de sobreviv\u00eancia e expans\u00e3o do Camaco que muitos moradores de Itabira veem uma sa\u00edda para um futuro em que a cidade ter\u00e1 que se reinventar.<br \/>\n&#8220;Essa linguagem nos ensina sobre resist\u00eancia. Ela \u00e9 resistente ao boicote da elite em rela\u00e7\u00e3o a ela e ela continua viva. E nos lembra que podemos resistir ao que a minera\u00e7\u00e3o nos apresenta hoje em dia. A minera\u00e7\u00e3o, claro, foi muito importante para Itabira, mas a gente fica com os preju\u00edzos dela, com a degrada\u00e7\u00e3o ambiental, com a polui\u00e7\u00e3o do ar, com a sa\u00fade precarizada por conta disso. Acho que a linguagem tamb\u00e9m pode nos lembrar com resistir, como podemos nos reinventar para o futuro aqui em Itabira&#8221;, resume o cineasta Breno Alvarenga.<br \/>\nSegundo Geuderson Marchiori, a chave pode estar n\u00e3o s\u00f3 no Camaco, mas tamb\u00e9m no pr\u00f3prio Drummond. Ou seja, no potencial cultural de Itabira.<br \/>\n&#8220;A cidade continua exercitando a criatividade dela&#8221;, afirma o linguista, que atesta: atualmente, o Camaco faz muito mais parte do dia a dia da cidade do que da pr\u00f3pria minera\u00e7\u00e3o. &#8220;Os dados que consegui me mostraram que a Linguagem de Camaco \u00e9 praticamente inexiste no contexto das minas e da atividade miner\u00e1ria. Uma mina, hoje, tem trabalhadores que n\u00e3o falam mais a linguagem \u2013 mas a cidade, sim&#8221;, conclui.<\/p>\n<div style=\"text-align: center; margin: 20px 0;\"><script async src=\"https:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/js\/adsbygoogle.js?client=ca-pub-4475525115208877\" crossorigin=\"anonymous\"><\/script><br \/>\n<ins class=\"adsbygoogle\" style=\"display: block; text-align: center;\" data-ad-layout=\"in-article\" data-ad-format=\"fluid\" data-ad-client=\"ca-pub-4475525115208877\" data-ad-slot=\"7970302005\"><\/ins><br \/>\n<script>\n     (adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({});\n<\/script><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A &#8220;l\u00edngua&#8221; secreta dos mineiros Uma cidade, um poeta. 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