{"id":1437457,"date":"2026-06-07T22:10:08","date_gmt":"2026-06-07T22:10:08","guid":{"rendered":"https:\/\/bocudo.com\/?p=1437457"},"modified":"2026-07-10T11:00:18","modified_gmt":"2026-07-10T14:00:18","slug":"renunciaremos-a-ousadia-de-pensar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/bocudo.com\/?p=1437457","title":{"rendered":"Renunciaremos \u00e0 ousadia de pensar?"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align:center;margin:20px 0;\">\n<script async src=\"https:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/js\/adsbygoogle.js?client=ca-pub-4475525115208877\"\n     crossorigin=\"anonymous\"><\/script><br \/>\n<ins class=\"adsbygoogle\"\n     style=\"display:block; text-align:center;\"\n     data-ad-layout=\"in-article\"\n     data-ad-format=\"fluid\"\n     data-ad-client=\"ca-pub-4475525115208877\"\n     data-ad-slot=\"7970302005\"><\/ins><br \/>\n<script>\n     (adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({});\n<\/script>\n<\/div>\n<p><strong>Renunciaremos \u00e0 ousadia de pensar?<\/strong><\/p>\n<p>Paulo Rosenbaum*<\/p>\n<\/p>\n<div class=\"tw-target-rmn tw-ta-container tw-nfl\" role=\"text\"> <strong>&#8220;N\u00e3o consigo encarar a ideia de uma vida sem trabalho. O que far\u00edamos quando as ideias falhassem, ou as palavras se recusassem a vir? \u00c9 imposs\u00edvel n\u00e3o estremecer s\u00f3 de pensar nisso.&#8221;<\/strong> <strong>Sigmund Freud\u00a0<\/strong> <\/div>\n<p>Numa recente simula\u00e7\u00e3o no King&#8217;s College*\u00a0de conflitos militares armados usando a IA a taxa de recomenda\u00e7\u00e3o de uso de &#8220;nukes&#8221;&#8216;, as bombas at\u00f4micas, foi de 95%. Quais as implica\u00e7\u00f5es e consequ\u00eancias dessa simula\u00e7\u00e3o? (Veja https:\/\/www.kcl.ac.uk\/news\/artificial-intelligence-under-nuclear-pressure-first-large-scale-kings-study-reveals-how-ai-models-reason-and-escalate-under-crisis)<\/p>\n<p>Em recente palestra o fil\u00f3sofo franc\u00eas Luc Ferry coletou dados que lhe permitiu calcular que 60 a 70% das ocupa\u00e7\u00f5es e trabalhos ser\u00e3o extintas at\u00e9 2035 em fun\u00e7\u00e3o da ado\u00e7\u00e3o da I.A. nos mercados de trabalho. E que por isso emerge simultaneamente a ideia de uma renda vital\u00edcia universal compensat\u00f3ria &#8212; provavelmente insatisfat\u00f3ria &#8212; providenciada pelos Estados. Ser\u00e1 inevit\u00e1vel. Ora, isso significaria uma esp\u00e9cie de bolsa subsist\u00eancia para boa parte da humanidade.<\/p>\n<p>\u00c9 todavia assustador considerar que trabalhamos apenas pela renda. O trabalho consiste em uma forma de intera\u00e7\u00e3o social, dignidade, e realiza\u00e7\u00e3o pessoal. O cumprimento de uma fun\u00e7\u00e3o que integra e constitui a pr\u00f3pria individualidade. Que preserva o sujeito de uma ociosidade degradante.<\/p>\n<p>Vamos retroceder um pouco e pensar no que efetivamente consiste o conjunto de sistemas aos quais se convencionou chamar de &#8220;intelig\u00eancia artificial&#8221;?<\/p>\n<p>A despeito de ser um avan\u00e7o extraordin\u00e1rio em muitas frentes a ponto dos entusiastas Henry Kissinger e Eric Schmidt terem-na classificado como o &#8220;novo iluminismo&#8221; ou &#8220;a maior revolu\u00e7\u00e3o desde o advento da ci\u00eancia moderna&#8221;, o <em>machine learning<\/em> ou o processo de m\u00e1quinas que aprendem sozinhas, permanece sendo mediado por um aprendizado entre m\u00e1quinas, alimentados por data centers gigantescos organizados. Vale dizer, o produto \u00e9 o resultado da intera\u00e7\u00e3o entre sistemas computacionais privados de consci\u00eancia.<\/p>\n<p>Decerto um dia, como preveem os experts, seremos surpreendidos com decis\u00f5es aut\u00f4nomas desses mesmos sistemas, isto \u00e9, \u00e0 revelia dos seres humanos. Caso essa emancipa\u00e7\u00e3o das m\u00e1quinas realmente ocorra como destino final,\u00a0 sua auto regula\u00e7\u00e3o significar\u00e1 uma mudan\u00e7a gigantesca, sem precedentes e imprevis\u00edvel no tenso jogo de rela\u00e7\u00f5es entre a tecnologias e as sociedades.<\/p>\n<p>Para Roger Penrose, pr\u00eamio Nobel de fisica e matem\u00e1tica, a express\u00e3o &#8220;intelig\u00eancia artificial&#8221; j\u00e1 consiste em um equivoco conceitual, j\u00e1 que a intelig\u00eancia \u00e9 uma caracter\u00edstica dos sistemas org\u00e2nicos vivos. Compreende-se que se &#8220;empreste&#8221; a palavra para definir uma nova tecnologia. No entanto Penrose prefere outro nome, um tanto ir\u00f4nico, e recomenda a express\u00e3o &#8220;Esperteza Artificial&#8221;. Chegamos a cogitar alguns termos substitutos tais como &#8220;Enciclopedismo artificial&#8221; ou &#8220;Ast\u00facia Artificial&#8221;, mas ainda n\u00e3o h\u00e1 um consenso sobre a nomenclatura mais adequada.<\/p>\n<p>Qu\u00e2ntica ou n\u00e3o, a atual tecnologia n\u00e3o consegue considerar que, a rigor, n\u00e3o existe uma intelig\u00eancia que n\u00e3o seja parte de um sistema org\u00e2nico portador de consci\u00eancia. Ou seja, o aspecto biol\u00f3gico da intelig\u00eancia \u00e9, ou deveria ser considerado, porquanto todo ser vivo possui instrumentos vitais que permitem interpretar tanto a realidade, como o mundo abstrato como, por exemplo, as rela\u00e7\u00f5es humanas e a arte.<\/p>\n<p>E a consci\u00eancia ainda \u00e9 fen\u00f4meno misterioso que merece as mais amplas investiga\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Isso posto, delegar, emular e confiar expectativas exageradas nestes sistemas para assumir controle e responsabilidade sobre atos e decis\u00f5es que caberiam aos sujeitos, soa, se n\u00e3o absurdo, perigoso, e talvez at\u00e9 mesmo, pusil\u00e2nime.<\/p>\n<p>No entanto, essa perspectiva parece ser a realidade predominante e irrevers\u00edvel deste final de p\u00f3s modernidade. O uso indiscriminado dessa ferramenta por parte das sociedades n\u00e3o apenas tem sido amplo, como caminha em dire\u00e7\u00e3o de uma hegemonia perturbadora.<\/p>\n<p>De forma secreta ou declarada, do estudante do segundo grau aos pesquisadores universit\u00e1rios, dos gerentes de neg\u00f3cios aos CEOs de grandes companhias, dos redatores de grandes m\u00eddias \u00e0 publicidade no varejo das redes sociais, a grande maioria tem usado uma das IA dispon\u00edveis para executar seus trabalhos, e terceirizar a obten\u00e7\u00e3o das informa\u00e7\u00f5es, e, assim, assumir as decis\u00f5es.<\/p>\n<p>Mas e quanto ao trabalho propriamente dito?<\/p>\n<p>Chamemo-lo de enciclopedismo ou de ast\u00facia artificial, o fato \u00e9 que o recurso n\u00e3o tem sido apenas uma ferramenta acess\u00f3ria consultiva espor\u00e1dica: mas usada para substituir a curiosidade. Eis que a curiosidade, especialmente a intelectual, tem sido o<em> leitmotiv<\/em> n\u00e3o apenas da criatividade, mas da for\u00e7a humana que impulsiona as transforma\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O entusiasmo com a tecnologia e a flagrante hipertrofia de seu uso indiscriminado, evidentemente pode levar tamb\u00e9m ao empobrecimento da capacidade humana de interpretar.<\/p>\n<p>Se a imagina\u00e7\u00e3o for, de fato, o aspecto quididativo mais especifico dos seres humanos o que ser\u00e1 que estamos deixando de lado ao terceirizar a pesquisa e renunciar \u00e0 ousadia de pensar?<\/p>\n<p>Esse pertencimento \u00e9 intransfer\u00edvel para qualquer sistema n\u00e3o org\u00e2nico uma vez que n\u00e3o se processa apenas nos hemisf\u00e9rios cerebrais, mas na experi\u00eancia completa de nossos organismos: no corpo, na psique, no inconsciente.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel que a atual tecno-idolatria advenha de uma interpreta\u00e7\u00e3o equivocada.<\/p>\n<p>Um panorama que n\u00e3o se encaixa na forma com a qual as mentes humanas se debru\u00e7am sobre as informa\u00e7\u00f5es, a arte, a pol\u00edtica e as demais formas de trabalho. N\u00e3o \u00e9 um acaso fortuito que v\u00e1rias atividades e profiss\u00f5es humanas estejam em grave crise, e o algoz desse desemprego em massa tenha sido imputado a essa entidade abstrata &#8211; j\u00e1 que n\u00e3o \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o, mas apenas mais um conceito &#8211; convenientemente nomeado como pensamento artificial.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o nos debru\u00e7amos novamente sobre a decis\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a simula\u00e7\u00e3o do King&#8217;s College acima referida. Como mostrou Herbert Marcuse em seu &#8220;Ideologia da Sociedade Industrial&#8221;: a garantia da n\u00e3o utiliza\u00e7\u00e3o de armas nucleares \u00e9 a compreens\u00e3o de um jogo complexo chamado de dissuas\u00e3o. Isto \u00e9, o entendimento de que o seu uso por parte de um agente, determinaria uma resposta de tal forma devastadora, que a derrota seria, necessariamente, coletiva.<\/p>\n<p>Mas o que foi perigosamente deixado de lado, ou subestimado, \u00e9 a ideia de que alguns regimes podem preferir e escolher a derrota coletiva, visando uma reden\u00e7\u00e3o escatol\u00f3gica ou qualquer del\u00edrio catastrofista purgativo, ou ainda apenas a elimina\u00e7\u00e3o da tens\u00e3o do planeta.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o qual foi o crit\u00e9rio que determinou que a m\u00e1quina, em sua esperteza n\u00e3o natural, tenha aconselhado o uso de armas nucleares?<\/p>\n<p>Fora um regime de orienta\u00e7\u00e3o abertamente escatol\u00f3gica como a ditadura tir\u00e2nica dos aitol\u00e1s e seus c\u00famplices, qual na\u00e7\u00e3o consideraria, na atual configura\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica, abandonar a dissuas\u00e3o e iniciar um ataque nuclear?<\/p>\n<p>Bem, a IA, n\u00e3o hesitou.<\/p>\n<p>Vale refletir, se devemos mesmo delegar a ousadia de pensar para outros, especialmente se forem m\u00e1quinas que simulam o pensamento, precisamos compreender melhor o risco que corremos e assumir novas responsabilidades.<\/p>\n<p>Ou mudar imediatamente o rumo do leme.<\/p>\n<p>*Paulo Rosenbaum, m\u00e9dico e escritor. Doutor em Ci\u00eancias, P\u00f3s Doutor em Medicina Preventiva pela FMUSP. Editor do Blog &#8220;Conto de Not\u00edcias&#8221; no Estad\u00e3o.\u00a0 Autor de &#8220;Verdade Lan\u00e7ada ao Solo&#8221;, &#8220;Navalhas Pendentes&#8221;, &#8220;C\u00e9u Subterr\u00e2neo&#8221; e &#8220;N\u00e3o Envelhecer\u00e1s&#8221; (AltaBooks).<\/p>\n<p>___________________<\/p>\n<p>Leia tamb\u00e9m<\/p>\n<\/p>\n<div class=\"video-container\">\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"qCBaQcDUim\"><p><a href=\"https:\/\/www.estadao.com.br\/brasil\/conto-de-noticia\/moises-contra-a-era-da-dispersao\/\">Mois\u00e9s contra a era da Dispers\u00e3o.<\/a><\/p><\/blockquote><\/div>\n<p><a href=\"https:\/\/www.estadao.com.br\/brasil\/conto-de-noticia\/a-indecifravel-singularidade-de-eretz\/\">https:\/\/www.estadao.com.br\/brasil\/conto-de-noticia\/a-indecifravel-singularidade-de-eretz\/<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.estadao.com.br\/brasil\/conto-de-noticia\/anotacoes-acerca-da-onisciencia-das-maes\/\">https:\/\/www.estadao.com.br\/brasil\/conto-de-noticia\/anotacoes-acerca-da-onisciencia-das-maes\/<\/a><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<div style=\"text-align:center;margin:20px 0;\">\n<script async src=\"https:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/js\/adsbygoogle.js?client=ca-pub-4475525115208877\"\n     crossorigin=\"anonymous\"><\/script><br \/>\n<ins class=\"adsbygoogle\"\n     style=\"display:block; text-align:center;\"\n     data-ad-layout=\"in-article\"\n     data-ad-format=\"fluid\"\n     data-ad-client=\"ca-pub-4475525115208877\"\n     data-ad-slot=\"7970302005\"><\/ins><br \/>\n<script>\n     (adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({});\n<\/script>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Renunciaremos \u00e0 ousadia de pensar? 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