{"id":1273952,"date":"2019-05-17T05:36:34","date_gmt":"2019-05-17T05:36:34","guid":{"rendered":"https:\/\/bocudo.com\/?p=1273952"},"modified":"2026-04-10T15:38:13","modified_gmt":"2026-04-10T18:38:13","slug":"estamos-nos-encaminhando-para-um-novo-cretaceo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/bocudo.com\/?p=1273952","title":{"rendered":"Estamos nos encaminhando para um Novo Cret\u00e1ceo"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: center; margin: 20px 0;\"><script async src=\"https:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/js\/adsbygoogle.js?client=ca-pub-4475525115208877\" crossorigin=\"anonymous\"><\/script><br \/>\n<ins class=\"adsbygoogle\" style=\"display: block; text-align: center;\" data-ad-layout=\"in-article\" data-ad-format=\"fluid\" data-ad-client=\"ca-pub-4475525115208877\" data-ad-slot=\"7970302005\"><\/ins><br \/>\n<script>\n     (adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({});\n<\/script><\/div>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1294999\" src=\"https:\/\/bocudo.com\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/glacier_binary_147895-scaled-1.jpg\" alt=\"\" width=\"2560\" height=\"1706\" srcset=\"https:\/\/bocudo.com\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/glacier_binary_147895-scaled-1.jpg 2560w, https:\/\/bocudo.com\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/glacier_binary_147895-scaled-1-600x400.jpg 600w, https:\/\/bocudo.com\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/glacier_binary_147895-scaled-1-1024x682.jpg 1024w, https:\/\/bocudo.com\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/glacier_binary_147895-scaled-1-768x512.jpg 768w, https:\/\/bocudo.com\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/glacier_binary_147895-scaled-1-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/bocudo.com\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/glacier_binary_147895-scaled-1-2048x1365.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 2560px) 100vw, 2560px\" \/><\/p>\n<p>Uma pregui\u00e7osa frase da moda \u2013 \u201c\u00c9 esse o novo normal?\u201d \u2013 tem circulado \u00e0 medida que eventos clim\u00e1ticos extremos se acumularam durante o ano passado. A resposta para ela deveria ser: \u00e9 pior do que isso \u2013 estamos a caminho de eventos ainda mais frequentes e mais extremos do que vimos este ano.<\/p>\n<p>Sabemos desde os anos 1980 o que nos aguarda. Se provid\u00eancias fossem tomadas na \u00e9poca para reduzir as emiss\u00f5es em 20% at\u00e9 2005, um aumento da temperatura global de menos que 1,5 graus Celsius poderia ter sido conseguido. Mas nada foi feito, e o turbilh\u00e3o de dados sobre o\u00a0 clima que foi criado desde ent\u00e3o apenas confirma e aprimora as previs\u00f5es originais. Ent\u00e3o, onde estamos agora?<\/p>\n<p>Em novembro passado, a COP 23 (Confer\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas), em Bonn, reportou que o aquecimento em 3\u00baC at\u00e9 2100 \u00e9 agora a expectativa realista. Sem controle das emiss\u00f5es, estamos a caminho de presenciar o dobro dos n\u00edveis pr\u00e9-industriais de CO2 (de 280 a 560 ppm, ou partes por milh\u00e3o) em 2050 \u2013 dobrando de novo at\u00e9 2100. Resumindo, estaremos gerando condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas que foram sentidas pela \u00faltima vez durante o per\u00edodo Cret\u00e1ceo (145-65,95 milh\u00f5es de anos atr\u00e1s) quando os n\u00edveis de CO2 alcan\u00e7aram mais de 1 mil ppm. O que isso poder\u00e1 significar, uma vez que j\u00e1 sentimos tais n\u00edveis de CO2 em quartos de dormir \u00e0 noite e em lugares lotados com pouca ventila\u00e7\u00e3o, e quando sabemos que, sob condi\u00e7\u00f5es continuadas de uma concentra\u00e7\u00e3o t\u00e3o alta de di\u00f3xido de carbono, as pessoas sofrem problemas cognitivos severos?<\/p>\n<p>Na realidade, o Cret\u00e1ceo \u00e9 um dos meus per\u00edodos geol\u00f3gicos favoritos. Nos deu os grandes montes e penhascos de giz que se estendem pela Europa. Nos deu figos, pl\u00e1tanos e magn\u00f3lias. Gerou pequenos mam\u00edferos, que de repente floresceram quando os ent\u00e3o deuses da cria\u00e7\u00e3o \u2013 triceratops, tiranossauros e seus primos \u2013 foram extintos no fim do per\u00edodo. Era tamb\u00e9m bastante quente, com temperaturas globais de 3 a 10\u00baC acima dos n\u00edveis pr\u00e9-industriais.<\/p>\n<p>Se vier a acontecer, qualquer nova era com um clima do tipo Cret\u00e1ceo n\u00e3o iria ser exatamente igual ao original. Para come\u00e7ar, os continentes estavam ent\u00e3o em posi\u00e7\u00f5es muito diferentes: a \u00cdndia era uma ilha ainda milhares de quil\u00f4metros ao sul de sua liga\u00e7\u00e3o com a \u00c1sia; um amplo oceano separava a \u00c1frica (com a Am\u00e9rica do Sul ainda colada) da Eur\u00e1sia. Mas, em uma repeti\u00e7\u00e3o do Cret\u00e1ceo, muito provavelmente n\u00e3o haveria mais uma vez gelo nos polos, e os n\u00edveis do mar ficariam cerca de 66 metros acima dos atuais. Tamb\u00e9m ver\u00edamos a cria\u00e7\u00e3o de vastos mares rasos e quentes com dep\u00f3sitos minerais, similares \u00e0queles que produziram estratos com espessuras de 400 metros no Cret\u00e1ceo antigo, \u00e0 medida que, em lugar de mam\u00edferos maiores que seriam extintos, r\u00e9pteis se espalhariam pelo globo e cresceriam em forma \u2013 uma adequada vingan\u00e7a dos dinossauros?<\/p>\n<p>A \u00fanica maneira que consigo conceber de humanos viverem em uma nova Era Cret\u00e1cea \u00e9 como um residual de cientistas e tecn\u00f3logos trabalhando em abrigos artificiais protegidos, um tanto como os habitantes da cidade invis\u00edvel de Baucis, criada pelo escritor Italo Calvino, onde as pessoas vivem em pernas de pau acima das nuvens \u201ccontemplando fascinadas a sua pr\u00f3pria aus\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p>Recentemente, soubemos da linha vermelha que os humanos ir\u00e3o atingir antes de nos aproximarmos de condi\u00e7\u00f5es cret\u00e1ceas. Em 2010, pesquisadores mostraram que nossa esp\u00e9cie n\u00e3o consegue sobreviver por mais que seis horas no que \u00e9 chamada de temperatura de bulbo \u00famido de 35\u00baC. Bulbo \u00famido significa 100% de umidade, ent\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o os 35\u00baC como n\u00f3s conhecemos. Mas, nos grandes cintur\u00f5es agr\u00edcolas indianos dos rios Indo e Ganges, temperaturas perto de 50\u00baC, combinadas com 50% de umidade (o que equivale \u00e0quela temperatura de bulbo \u00famido de 35\u00baC), ir\u00e3o prevalecer dentro de d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Enquanto isso deve acontecer em regi\u00f5es agr\u00edcolas quentes, o mundo urbano ir\u00e1 enfrentar uma cat\u00e1strofe talvez ainda maior. O aumento de temperatura mais prov\u00e1vel previsto pelas Na\u00e7\u00f5es Unidas, de 3\u00baC, resultaria em florestas crescendo no \u00c1rtico, e levaria \u00e0 perda da maior parte das cidades costeiras gra\u00e7as \u00e0 subida irrevers\u00edvel do n\u00edvel do mar at\u00e9 o fim do s\u00e9culo.<\/p>\n<p>\u00c9 amplamente aceito agora, pelo menos entre os cientistas, que os seres humanos se tornaram agentes geol\u00f3gicos, vindo da\u00ed a designa\u00e7\u00e3o de um novo per\u00edodo geol\u00f3gico: o Antropoceno. Contribui\u00e7\u00f5es humanas ao meio ambiente, incluindo fertilizantes artificiais de nitrog\u00eanio e CO2, atualmente ultrapassam os ciclos naturais. A no\u00e7\u00e3o popular de que assuntos humanos e geol\u00f3gicos s\u00e3o incompar\u00e1veis \u00e9 desmentida pelo fato de que, muitas vezes, a Terra movimentou-se muito rapidamente. Dois grandes eventos de aquecimento \u2013 com um longo per\u00edodo de esfriamento no meio \u2013 encerraram a \u00faltima Era do Gelo h\u00e1 12.600 anos, por volta de 9.600 a.C. Ambos produziram picos de 10\u00baC em n\u00facleos de gelo na Groenl\u00e2ndia. O primeiro aconteceu durante apenas tr\u00eas anos; o segundo, que anunciou as condi\u00e7\u00f5es relativamente est\u00e1veis do Holoceno, aconteceu por um per\u00edodo de cerca de 60 anos.<\/p>\n<p>Uma li\u00e7\u00e3o para hoje \u00e9 que tal mudan\u00e7a repentina e duradoura para o clima tem consequ\u00eancias que duram milhares de anos. O primeiro aquecimento levou \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de um enorme lago que se espalhou pela Am\u00e9rica do Norte, \u00e0 medida que a camada de gelo Laur\u00eantida derreteu e acabou estourando, levando a uma subida do n\u00edvel do mar em larga escala, o que formaria os Grandes Lagos e as Cataratas do Ni\u00e1gara cerca de 2.500 anos mais tarde. A Gr\u00e3-Bretanha foi finalmente separada da Europa 3.500 anos depois do in\u00edcio do Holoceno; e \u00e0 medida que as camadas de gelo ao norte derreteram, a terra sob elas subiu. Isto continua acontecendo na Su\u00e9cia hoje, ao ritmo de 1 cent\u00edmetro por ano.<\/p>\n<p>Esse per\u00edodo, o nosso per\u00edodo, \u00e9 tecnicamente interglacial, e iria terminar de qualquer forma. Em geral, a Terra sempre foi violentamente inst\u00e1vel, ou estavelmente hostil, por longos per\u00edodos, quente ou fria demais para a civiliza\u00e7\u00e3o humana. N\u00e3o tiv\u00e9ssemos for\u00e7ado as temperaturas globais para cima por meio das emiss\u00f5es de CO2, estar\u00edamos muito provavelmente diante de uma nova Era do Gelo; do jeito que est\u00e1, o Holoceno est\u00e1 terminando t\u00e3o rapidamente quanto come\u00e7ou com um novo pico de temperatura ocorrendo durante dura\u00e7\u00f5es humanas de vida normais.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, enquanto tagarelamos sobre o \u201cnovo normal\u201d, precisamos reconhecer que n\u00e3o havia nada de \u201cnormal\u201d sobre o Holoceno. An\u00e1lises especializadas de como a civiliza\u00e7\u00e3o humana se desenvolveu durante o per\u00edodo benigno de 10 mil anos do Holoceno est\u00e3o s\u00f3 agora virando\u00a0 conhecimento comum. O geneticista David Reich est\u00e1 \u00e0 frente, com seu relato \u201cWho We Are and How We Got Here\u201d (Quem somos e como chegamos aqui, em tradu\u00e7\u00e3o livre) de 2018, que derruba v\u00e1rios mitos. Ele usa pesquisas baseadas em DNA antigo para ligar o movimento humano ao desenvolvimento da linguagem. Um conhecimento t\u00e3o profundo do per\u00edodo defende que nosso problema n\u00e3o se resume \u00e0s emiss\u00f5es de CO2 da era p\u00f3s-industrial (aquecimento global, de qualquer maneira, provavelmente come\u00e7ou com a queimada de florestas na agricultura primitiva), mas insiste que o Holoceno foi um presente fora do comum \u00e0 humanidade que exploramos e demos como certo. Estamos agora assistindo ao seu funeral.<\/p>\n<p>Se formos evitar o sofrimento neste caminho para um novo Cret\u00e1ceo, esta conscientiza\u00e7\u00e3o precisa se estender para muito al\u00e9m dos ge\u00f3logos e bi\u00f3logos que nos ensinaram de onde viemos e para onde, a n\u00e3o ser que mudemos, estamos indo.<\/p>\n<p><strong>Peter Forbes<\/strong> j\u00e1 escreveu sobre ci\u00eancia para as publica\u00e7\u00f5es New Scientist, The Guardian, The Times, Scientific American e New Statesman, entre outros. Seu \u00faltimo livro, escrito em co-autoria com Tom Grimsey, \u00e9 \u201cNanoscience: Giants of the Infinitesimal\u201d (Nanoci\u00eancia: gigantes do infinit\u00e9simo, em tradu\u00e7\u00e3o livre) (2014). Ele mora em Londres.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-1380021\" src=\"https:\/\/bocudo.com\/wp-content\/uploads\/2003\/04\/MINI-noticias-removebg.png\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"200\" \/><\/p>\n<p><strong>Tradu\u00e7\u00e3o de Camilo Rocha\u00a0<\/strong><\/p>\n<div style=\"text-align: center; margin: 20px 0;\"><script async src=\"https:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/js\/adsbygoogle.js?client=ca-pub-4475525115208877\" crossorigin=\"anonymous\"><\/script><br \/>\n<ins class=\"adsbygoogle\" style=\"display: block; text-align: center;\" data-ad-layout=\"in-article\" data-ad-format=\"fluid\" data-ad-client=\"ca-pub-4475525115208877\" data-ad-slot=\"7970302005\"><\/ins><br \/>\n<script>\n     (adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({});\n<\/script><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma pregui\u00e7osa frase da moda \u2013 \u201c\u00c9 esse o novo normal?\u201d \u2013 tem circulado \u00e0&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1294999,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8197,8218,8217],"tags":[988,728,989,1004,19297,747,19296,19295,731,19299,196,19301,213,19300,19302,19298,4299,7319],"class_list":["post-1273952","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-conhecimento-e-curiosidades","category-meio-ambiente","category-natureza","tag-africa","tag-america-do-norte","tag-america-do-sul","tag-asia","tag-bonn","tag-co2","tag-conferencia-das-nacoes-unidas-sobre-mudancas-climaticas","tag-cop-23","tag-dna","tag-eurasia","tag-gra-bretanha","tag-groenlandia","tag-india","tag-italo-calvino","tag-laurentida","tag-periodo-cretaceo","tag-tiranossauros","tag-triceratops"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/bocudo.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1273952","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/bocudo.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/bocudo.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/bocudo.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/bocudo.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1273952"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/bocudo.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1273952\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1388818,"href":"https:\/\/bocudo.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1273952\/revisions\/1388818"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/bocudo.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/1294999"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/bocudo.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1273952"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/bocudo.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1273952"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/bocudo.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1273952"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}